Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.
Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido:
Tu poderás talvez, pedindo a teu marido...
Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana
Quando te respondi com altivez soberana.
Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor
E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr...
—Mas fala, mas responde a isto que eu te peço!
Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!
E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados no coxim.
Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.
Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:
Não me resta uma esperança,
Pois não me escuta ninguem!
Dorme a eterna Divindade
No azul da Immensidade,
Nos horisontes d'além,
Onde não chega um suspiro,
Onde o silencio é profundo.
Ha de ser bom tal dormir,
Descuidoso do porvir,
Descuidoso d'este mundo,
N'aquelle reino divino
Tecido por andorinhas,
Feito só para os honrados,
Para os bons e desprezados,
Para as meigas creancinhas...
Tão sereno como o lago
Da Galiléa florída,
Que se formou por encanto
Do arrependido pranto
Da mãe Eva arrependida...
—Parece mesmo que o vejo
No seu manto azul. Dir-se-ia
Que o firmamento amoroso
Teve a alegre fantasía
De enviar á terra um beijo
Puro, suave, bondoso...
Parece mesmo que o vejo.
—É seu olhar calmo e doce;
A tudo o mais fica estranho,
Quando distingue o fulgor
Dos astros, como se fosse
O cuidadoso pastor
Do scintillante rebanho...
CLAUDIA adormecida, vagamente:
É seu olhar calmo e doce...
MARIA continuando alheiada a tudo:
Tem o brilho das seáras
O cabello perfumado,
Que nos hombros lhe descansa
E lhe cerca as faces claras.
É tão formoso e doirado
Como um sorrir de creança...