Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam mansamente.

Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, corpos sem vida de suppliciados.

Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro. Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas. Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.

Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, argiloso e triste.

Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.

A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.

O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que é Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram reforçadas na vespera por ordem de Poncio.

AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem:

Erguei-vos, camaradas, pois não deve
O negro deus do somno tal imperio
Exercer sobre vós, quando do Olympo
Cáem com furia as cóleras de Jove.

LAUSO accordando:

Novamente começa a tempestade?

FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:

Foi aquelle patife do Vulcano,
Que lhe enviou fornecimento novo.

LAUSO erguendo-se:

Pois ainda troveja?

AMPÍO