FÁBIO com uma risada alvar:

Eh! lá! Vê como falas,
Que o teu rei já não vive!

O MERCADOR muito seccamente:

Da Judéa
Ha muito que fugiu a realeza!

E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que d'elles chasqueiam.

A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, os membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, esfarrapada e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés descalsos.

JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a voz muito enfraquecida:

Vem o dia a nascer das regiões eternas.
Depois de ter lançado as iras justiceiras,
O grande firmamento agora é mudo e quedo.
Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas,
E vão pedir a noite ás fendas do rochedo
As aves agoureiras.

E olhando para a caverna d'onde saíu:

Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,Ó treva de amargura e negras maldições!
Ó antro, que animei co'o halito do crime,
Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro
Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime,
Das tectricas visões!