Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois, como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:
Estavam a dormir ao pé das oliveiras,
E a Lua derramava em cheio nas clareiras
O argentino olhar, o seu formoso pranto.
Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,
Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...
Mas ficou-se indeciso apenas descobriu
Dos archotes a luz na solidão campestre.
—Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.»
Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,
Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo
Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!
Co'um latido feroz toda a matilha sae
Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!
Aos amigos leaes occorre o pensamento
Heroico de empregar a força. A gritaria
Desperta o olival da funda lethargia.
Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador...
Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror.
Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja
Espavorida vae dizendo-me que fuja.
E erguendo-se de chofre, animando-se:
Percorro velozmente os grandes olivaes;
Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;
O manto esfarrapado o rasto meu indica,
Depois a propria carne! A alma, porem, não fica,
Pois se olho para traz, sobre a verdura espessaPersegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça.
Termina de repente o estenso matagal,
Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal
Onde tenho uma lucta encarniçada e louca:
A lama em borbotões entra-me pela bocca,
Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,
Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,
Fogem nuvens de rãs para logares occultos,
E o seu coaxar parece arremetter insultos!
Mas saio vencedor e a terra firme alcanço;
Então quero parar... mas corro sem descanso.
As forças vão fugindo, e julgo que do peito
O coração rebenta exanime e desfeito!
Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto
Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,
Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando
Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.
Chego á margem; depois entro por um atalho
Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho...
Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo
Descobrir de repente o mais seguro abrigo!
Abeirando-se da caverna:
Sem saber onde estou, a estremecer d'horror,
Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor,
Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura,
Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura,
Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas,
A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!
Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna responde-lhe longamente...
Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:
Eliminei a causa, e agora nem procura
A minh'alma saber se existe ou já não duraO effeito. Um assassino é o que vejo em ti,
Judas!
Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.
O coração refugiou-se aqui
Transformado em dinheiro. É prata reluzente,
Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente!
E falas de ambição, tu que possues a marca
Das filhas sem pudor do velho patriarcha!...
Relembras o incesto horrendo de Thamar,
E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar
A honra de seu pae no leito da madrasta!...
E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta
Em de redor de mim o grande amontoado
Das velhas podridões da carne e do peccado!