MARIA, dogmatica:
Abismo, cujo seio
Não poderá conter o que era illimitado!
JUDAS acobardado:
Que dizes tu, mulher?!
MARIA em tom profetico:
Que dorme inanimado
O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio
Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio,
Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário,
Como o trabalhador que não requer salário
E que só tem por fim realisar o plano
De ha muito concebido. Em vão o olhar humano
Procura descobrir o que existe no centro
Do casúlo: o misterio é silencioso dentro.
Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto,
Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!
JUDAS tomado de vago terror:
Justos ceus!
MARIA animando-se:
Has de vêr, com a tua alma inquieta,
Saír do seu casúlo a enorme borboleta,
Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,
Encher de luz o espaço e de pavôr a terra,
Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...