Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda,
Para insultar a Vida, essa madrasta bruta,
Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta!
E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme,
Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!

E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.

É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.

João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no chão, já secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de João, destaca-se fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal.

E é então que

JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:

Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta!
Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim;
Elle quem libertou da escravidão funesta
O povo d'Israel... Elle descansa em mim.
Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim!
Seja bemdito quem ouvir e conservar
As palavras que encerra a minha profecia!
Quem tem ouvidos, oiça! e purifique o olhar,
Porque já não vem longe o tenebroso dia
Em que todos vereis a minha profecia!
—Despenham se na terra os astros refulgentes;
O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue;
Varíam de logar ilhas e continentes;
A Grandeza estremece e vem caír exangue...
O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue...
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Escripto em 1888-1890

Acabado de imprimir aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901 na Imprensa de Libanio da Silva Rua do Norte, 87 a 103

Lisboa

Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipográficos. Na lista que segue estão as alterações mais importantes.