JOÃO
Ao largo esse receio!
Muito mais me entristece a nuvem má que veio
Escurecer ao Mestre o doce olhar...
SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma intimidade muito amiga:
Meu caro,
Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo
O tempo que passou a este em que hoje estamos:
O verbo illuminando a treva e os recamos
Do manto a que se abriga uma ambição enorme;
As contorsões finaes do animal disforme
Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés,
Rojando-se afinal vencido a nossos pés!
ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae n'alma:
E julgas que não tarda em despontar o dia
Tão desejado?
SIMÃO PEDRA
Eu?! Pois quem duvidaría?
—A doutrina do Mestre é como o grão de trigo,
Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo.
Que mais cuidados tem o bom do lavrador?
Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor,
Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão,
A força e o poder da multiplicação.
Se o lavrador depois no campo seu repára
E vê brilhar ao sol a refulgente seára,Exclama, commovido: Abençoada terra,
Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!
ELEAZAR, quasi a medo:
Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?