JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:
Chiméras, illusões...
JOÃO
Talvez.—Mas quem nasceu,
Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu
Por vasto cortinado; aquelle que na infancia
Aprendeu a olhar com summa repugnancia
Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre,
Muito melhor que tu ha de entender o Mestre.
Não podem comprehendel-o os rudes corações
Selvagens como o teu!
JUDAS
Chiméras, illusões...
JOÃO
Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres
Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres
Supplícas com aspecto humilde uma parcella
P'ra o Mestre!—Na verdade, é preciosa e bella
Tanta dedicação! Provoca o elogío!
—Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío
O teu olhar matreiro, o brilho da avareza
A dar-lhe um tom sinistro?—Odeias a pobreza!
Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas
Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!