João!
JOÃO cruza os braços e sereno:
Podes bater, amigo! Por que esperas?
Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E João, agora ainda mais excitado:
E chamas illusões! e vens chamar chiméras
Ao que é verdade núa e positiva?!—Agora
Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora;
No actual momento em que até eu vacílo,
Presentindo que não poderá ser tranquillo
O futuro do Mestre e de nós todos, mudas
Em odio declarado essa frieza, Judas?!
Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso?
Confessa que proveito, ou que terrivel goso
Encontras n'essa infamia abjecta!
Desesperado pela indifferença apparente de Judas:
Que supplicio!
Não poder arrancar-te ao menos um indicio!
Não poder descobrir a causa que assim léva
O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva!
Ah! não poder, depois do que disseste aqui,
Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!
E senta-se, febril, n'uma das camilhas.
JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, diz-lhe emfim com muita ironía:
Está bem! muito bem! Ao menos, esperava
Que soubesses deter a incandescente lava,
Que todo me queimou, transformando em carvão
A minha consciencia... embora de ladrão.