Maria,
Pareces que vaes fugindo...

MARIA baixando o olhar:

Para não te incommodar,
Quando estiveres dormindo.

E retira-se tambem, fechando a porta castamente:

JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:

É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa...
Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa,
Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim.
Provem este rancor, que ella sente por mim,
Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala,
Do ente extraordinario a que nenhum se eguala,
Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito.
Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito!
—Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,
Ainda que me sinta a resvalar no lodo!

E erguendo-se, impetuoso:

E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços!
Quando o trovão ribomba altivo nos espaços,
Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!
Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho!
—... Mas quem me diz não ser este sinistro plano
Improficuo, ou então summamente leviano!
Se elle fugir á morte, ao estertor final,
Por um processo occulto e sobrenatural,Contra mim lançará todo o furor do ceu,
Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!

Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:

Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,
O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz,
Ó Deus, entoaria, agradecido a ti,
Uma canção igual aos psalmos de David,
Transformando o meu peito em grande tabernaculo!
—Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!