Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um sorriso malevolo, animando-se:
E se, como se diz, elle não fôr divino?
Se obedecer, como eu, á força do destino?...
—Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso
E possante vigor d'um corajoso pulso!
Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente, Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora acobardado:
Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime.
E como poderei matar, sem ver o crime?
Armando um braço vil? comprando uma consciencia?
É pouco, é muito pouco... e é tudo!—Que demencia!
Quem poderá saber onde reside a féra,
Que tenha peito humano e garras de pantéra?
Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca espumando:
—Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha,
Que vive silenciosa em tua negra entranha,
Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo,
Enorme como Deus, mesquinha como um sapo!
Genio amante do crime e á virtude adverso,
Que mora num covil... e zomba do Universo!Eu quero conhecer o amigo dos devassos:
Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!
Com grande desanimo:
Nem elle me protege! E eu preciso, emfim,
D'um ser bastante infame!
BENJAMIM com muita humildade:
Aqui me tens, a mim...