JUDAS caricioso:
Deixa-te pois
Ficar junto de mim, que facilmente os dois
Teremos na conversa um passatempo. Fica.
E mentalmente:
Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.
Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...
JUDAS
Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,
Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar,
Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,
E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.
MARIA com simplicidade, avançando um pouco:
Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa
Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença.
Ao passo que me opprime este cruel receio
De vêr barafustar o nosso Mestre em meio
Dos inimigos seus, mais frio do que a neve
Se torna o meu olhar.