MARIA

... és infiel.
Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro
Do que seja o dever, e que se torna avaro,
Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista!
Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista!
Se não queres viver do amor pela virtude,
Se á pureza é rebelde essa tua alma rude,
Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte:
Foge para distante, ou foge para a Morte.

JUDAS allucinado, avançando para ella:

Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala!
Fica sabendo pois que isto que me avassala,
O que por fim se espande e que ha de ser funesto,
Nunca foi do amor um sentimento honesto!

MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:

Maldito sejas tu, se acaso me tocares!

JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos, agarrando-a:

Que importam maldições inuteis e vulgares?
Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,
Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!

E tenta beijal-a, soffrego:

MARIA evitando-lhe os beijos: