TERCEIRA JORNADA
EM 13 DE NISAN
Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio Pilado, tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar.
Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente, achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá para um terraço resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da quadra, ergue-se um busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal; de roseo o busto, em cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a legenda: Tiberius Claudius Nero, Imp. Das portas ha pendentes reposteiros de azul e oiro. É da mesma fazenda o reposteiro que está ornando o arco e repuxado junto ao angulo. Fitando nós o busto de Tiberio, temos sobre a direita larga meza de citrus, onde ardem n'um bronzeo candalabro trez vellas de cêra e pez; e perto d'ella vemos uma cadeira d'estofado, de braços longos, costas amplas e recurvas; á nossa esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com embutidos de tartaruga e trez almofadas de lavor riquissimo; não distante, no chão, está estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario de ébano macisso alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta graciosa clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala das horas que decorrem.
Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças, capacetes, escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de oiro cinzelado.
Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que a Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar, banhando as casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole.
No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e longa a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e é branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de Claudia a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por demais conhecido panorama.
CLAUDIA solta emfim um suspiro.
Dorme tudo na cidade.
Que silencio e que tristeza!...
GEDA
Tens então grande saúdade
De Roma?
CLAUDIA
Sim. Dizes bem:
É saúdade esta amargura,
Pois outro nome não tem
O que sinto na Judéa
Onde Poncio me exilou.
—Que horas podem ser? Vê lá.