PONCIO que se voltára, encarando n'ella, e em tom suasorio:

Tu não vês que deixarmos a Judéa
Não seria prudente?
Tiberio é para nós inexcedivel
Em attenções, e dá-me como prémio
A confiança. Bastaria a idéa
Da minha demissão, para de vez
Nos expulsar do resumido grémio
Dos seus affeiçoados, e talvez Depois se transformasse em vingador...
—Pede outra coisa, Claudia; nunca peças
O que julgo insensato.
Somos grandes aqui; nenhum valor
Teriamos na côrte. Não te esqueças
Da sorte de Coponio, Rufo e Grato,
Ao voltarem a Roma.
Pede outra coisa, Claudia, que por certo
Has de ser attendida.
Não me digas, porém, que vá trocar
Aquillo que é seguro pelo incerto.

CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:

Mas que m'importa, a mim, o teu logar,
Se eu desejo viver onde se viva?
Em Roma, na cidade portentosa,
Onde qualquer escrava é mais altiva
Que uma nobre judía virtuosa!
Onde Gelanio, o deus das gargalhadas,
Desinfecta as emmanações palustres
Da tristeza! onde as pedras das calçadas
Falam até de tradições illustres!
Quero fugir d'este mortal supplicio
Para onde o meu ser se espanda e vibre;
Participar no seductor bulicio,
E ver á tarde o Sol beijar o Tibre!
Assistir como outr'ora aos festivaes
No grande circo onde o valor impéra;
Vêr athletas sanguineos, triunfaes
E ouvir os rugidos d'uma féra!
Beber o doce vinho de Falerno,
Ser cortezã, de novo rir e amar...
Dêem-me vida longe d'este Averno,
E que m'importa, a mim, o teu logar!

PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada:

O que uma vez escrevo, escripto fica!

Depois, mais brando:

Não fugirei ás ordens de Tiberio.
De mais, coisa nenhuma justifica
Em solidas razões o que me pédes.

E volta á primitiva posição.

CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a cólera: