Pois digo-te que nunca has de caír na lama
Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente,
A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente!
E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se.
HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:
Eu não falo por mim; eu falo por Moysés,
Cuja doutrina tem sido calcada aos pés
D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha
Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha
Só para dizer mal dos grandes e dos ricos;
Que dirige a palavra aos seres impudícos,
Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões;
Que anda em nome de Deus a conceder perdões
A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino,
Se atreve a inculcar como um ente divino!
PONCIO tranquillo, sorrindo:
Quem sabe?... Pode ser...
HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:
O quê?!
PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras:
Se te reféres
Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres
Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade
Para o matar. Não mato uma celebridade.
Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve
Uma grande ovação. De resto, não se atreve
A suscitar no povo o odio contra o Império:
Deseja que se entregue a Deus e a Tibério
O que pertence a Deus e o que pertence a Roma.
Agrada-me o desejo. É o melhor diploma
Que lhe ha de garantir a minha protecção.