5.ª
MEGALITHOS EM PORTUGAL

Fallando da distribuição geographica dos dolmens em Portugal e Hespanha, e fazendo applicação, á Peninsula, da lei dos litoraes, verificada n’outras partes da Europa, na Asia e Africa, dissemos que se encontram numerosos na Galiza, no Alemtejo e outras provincias e continuam depois pelo Algarve e pela Andaluzia. Com relação ao Algarve advertiremos que actualmente se não conhecem megalithos nenhuns n’esta provincia. Teve-os porém na antiguidade, como se deprehende de Strabão, que no livro III, menciona no Sacrum Promontorium (hoje Cabo de S. Vicente) lapides multis in locis ternos aut quaternos impositos. Na opinião de Rougemont (L’âge du bronze, pag. 287, nota), estes grupos de tres ou quatro pedras cada um não seriam dolmens, porém cromlechs ou pilares-idolos.

Na serra de Cintra ha um megalitho notavel, commumente denominado Dolmen de André Nunes. Foi estampado no Archivo Pittoresco, tomo XI, a paginas 377. Todavia esta gravura representa o monumento de modo que por ella sómente o não podemos classificar. Por informações minuciosas que nos deu o sr. Fuschini, digno engenheiro districtal de Lisboa, que o observou pessoalmente, não se ha de considerar como dolmen, mas sim como um tumulo ou galeria. O sr. Fuschini affirma ter visto as paredes lateraes, parallelas, formadas de grandes lages postas a prumo e cobertas com outras grandes lages horisontaes.

No Alemtejo não se conhecem tumulos, mas em compensação, esta é de todas as provincias de Portugal a mais abundante de dolmens. Em 1733 o academico Fr. Affonso da Madre de Deus Guerreiro, communicava á Academia Real de Historia haver em Evora e n’outros logares circumvisinhos sessenta e sete antas, quatro das quaes davam o nome de Antas ás herdades onde se conservavam.

O sr. Gabriel Pereira, em carta de 8 de novembro d’este anno de 1877, informa-nos de que fôra encontrar na herdade da Candieira, a meio caminho do Redondo para o convento de S. Paulo da Serra d’Ossa, um dolmen furado, de qual promette dar a estampa e descripção no Universo Illustrado. Se é com effeito o que o observador suppõe, torna-se muito notavel, porque não consta de outro nenhum dolmen furado em toda a Peninsula. Diz mais o sr. Gabriel Pereira na carta citada: «Indo do mosteiro para Machede, pela estrada que passa pela herdade das Vidigueiras, e em terras que julgo pertencerem á herdade das Thesouras, encontrei outra (anta) que se desvia tambem da maneira geral; não é um dolmen só, são tres agrupados, juntos, sem galerias; e entre os muitos pedregulhos derrubados jaz uma grande pedra quasi prismatica, de secção pentagonal, de faces rudemente talhadas, que erguida parece deveria occupar um ponto medio entre os tres dolmens. D’estes só um conserva a mesa. Por ultimo na herdade das Vidigueiras visitei um dolmen, cuja existencia me constava ha muito. É notavel por ter galeria ainda bem determinada.»

6.ª
ESPADAS DE COBRE DO ALEMTEJO

«Outras antiguidades tenho descoberto n’este territorio que mostram viverem aqui gentes da mais remota idade, quando as ideias das artes eram mui apoucadas. São estoques, ou espadas de quatro palmos de comprido e um dedo de largo, sem gume, e achadas em varios sitios d’esta diocese. Foram do tempo em que os nossos feriam sómente de ponta e não de córte. Os virotes são curtos, e são com orelhas, que separam da folha o maçote ou punho onde a mão segura a arma, e vai cópia na lamina ([fig. 8]). Sobre isto póde lêr-se D. Joachim Marin, Historia de la Milicia Española, tom. I, pag. 33. A materia é bronze ou de ferro. Não obstante haverem jazido debaixo da terra pelo espaço de seculos estão muito limpos, e bem conservados. Noto que os punhos em algumas são curtos para poder jogar com a espada mão pueril, outras são affeiçoadas para maiores pessoas: seriam as dos punhaes com que escreve Grapaldo, De partibus Aedium, pag. 248, dizer Vitruvio non cœsim sed punctim ferire docendos esse Tyrones. Dos Celtiberos escreve Diodoro Siculo que enterravam o ferro para se consumir pela humidade a parte d’elle fraca, e ficasse no vivo a de constante duração. Laminas autem ferri sub terra obsconditas tandiu jacere sinunt dum ferri parte debiliore ferrugine ambusta validior supersit. L. V, pag. 356. Ed. de Wesslingio; porém as de bronze não careciam de tanta cautella.»

D. Fr. Manuel do Cenaculo, Vida de S. Sizenando e historia de Beja, sua patria. Cod. CXXIX/I-9 da Bibliotheca de Evora.

7.ª
ADAPTAÇÃO MODERNA DOS MACHADOS DE PEDRA A VARIAS INDUSTRIAS

Ha machados de pedra disformados n’uma das extremidades, que, em vez da fórma primitiva, apresenta a de uma excavação ou angulo reintrante, e as superficies muito polidas, como por effeito do desgaste. O padre Theodoro d’Almeida, no tomo 1, da Recreação philosophica, a pag. 16, explica-nos o facto, dizendo que os Tiradores do fio de ouro, usavam das pedras de raio para fazer, á força do attrito, adherir as folhas de ouro á superficie de uma barra de prata, que depois estiravam á fieira, conservando sempre a côr do ouro. Isto produz o auctor para mostrar a grande divisibilidade da materia.