Tout est bien aujourd’hui, voilá l’illusion.
Mas, assim como a curva se aproxima cada vez mais da asymptota, sem chegar a tocal-a, assim tambem o homem, sem poder chegar á perfeição absoluta, aproximar-se-ha, se quizer, cada vez mais a este sublime ideal.
INTRODUCÇÃO
Á ARCHEOLOGIA DA PENINSULA
CAPITULO I
ESTUDOS PREHISTORICOS
Os erros geocentrico e anthropocentrico e o progresso das sciencias.—Machados de pedra.—Opiniões dos antigos e do vulgo ácerca da sua origem.—Mercati entrevê a verdade.—Demonstrações de Jussieu e de Mahudel.—Opiniões de auctores hespanhoes e portuguezes.—Primeira definição das idades prehistoricas.—O homem fossil.—Schmerling.—Boucher de Perthes.—Os sabios francezes e inglezes.—Inversão das opiniões em França e Inglaterra.—Conferencia internacional.—Resultados definitivos.—Estudos prehistoricos em Hespanha e Portugal.
Obcecados pela ignorancia e desvanecidos pelo orgulho, os homens acreditaram por muito tempo dois erros capitaes, oppostos e contrarios ao progresso da sciencia e ao desenvolvimento da humanidade. Consistia um, que chamam geocentrico, em suppor a terra, plana e immovel, o centro do Universo; o outro, anthropocentrico[1], em julgar tambem o homem centro e fim unico e ultimo de toda a creação. E tanto esses erros se tinham arraigado, durante a longa infancia do genero humano, que, só porque proclamaram o movimento da terra, no seculo XVI Copernico passava por doido, e, no seculo XVII Galileu, por não ser posto a tormento ou lançado ás chammas, tinha de abjurar, perante a Inquisição de Roma, as crenças scientificas.
Todos sabem que, depois da epoca memoravel do renascimento, a demonstração do primeiro erro foi uma das causas que mais contribuiram para elevar a humanidade acima dos apertados horisontes em que a idade media a confrangera. O segundo, porém, continuou a dominar o animo dos naturalistas a ponto que, na primeira metade do seculo XIX, Cuvier e a maior parte não acabaram comsigo a acreditar em que existisse nas entranhas da terra algum vestigio fossil do homem entre os dos outros mammaes, contemporaneos dos ultimos phenomenos que alteraram a face do globo. Cediam assim ao geral influxo do erro anthropocentrico, segundo o qual, a especie humana, a ultima na ordem das creações successivas, sómente poderia apparecer depois que os varios agentes da natureza houvessem longamente preparado a configuração actual dos continentes, que tinham de servir-lhe de berço e de vivenda.
Do erro anthropocentrico derivava-se tambem naturalmente a crença na civilisação primordial e na consecutiva decadencia da humanidade; e portanto, cousa impossivel parecia o descobrirem-se objectos da industria humana que provassem exactamente o contrario, isto é, que o homem progredira e se aperfeiçoára gradualmente, passando do estado selvagem a civilisações cada vez menos imperfeitas.
Os machados de pedra, que em grande numero apparecem sepultados na terra em todas as partes do mundo, foram por muito tempo considerados, não como productos da industria humana, mas como effeitos miraculosos da cholera dos deuses ou resultas incomprehensiveis das forças naturaes. O vulgo chama-lhes ainda hoje pedras de raio, como em Grecia e Roma lhes chamavam ceraunias[2]. E, tambem como os povos modernos, os gregos e romanos lhes attribuiam virtudes mysteriosas e curativas. Na Grecia, particularmente, era opinião commum que Jupiter as arrojára do céo, e sobre certos montes convisinhos do mar Caspio e no da Chymera, no Epiro, mais do que em qualquer outra parte. Em razão do que, lhes rendiam culto e as collocavam em logares reservados. Não falta quem supponha que os sacerdotes de Cybele se serviam com facas ou machados de pedra para espontaneamente se mutilar em honra de Atys. Entre os hebreus era uso fazer a circumcisão com instrumentos de pedra[3], venerados talvez como sagrada recordação da remota antiguidade.