Mas os depositos mechanicos são os mais interessantes pela maior variedade de restos que contêem. Todos sabem que as aguas correntes arrastam em suspensão materias solidas, e muitas especificamente mais pesadas. Se qualquer causa diminuir ou destruir o movimento da agua, as partes solidas depositar-se-hão, em geral, pela ordem das suas densidades relativas. Isto posto, vê-se como os vãos das cavernas deveriam favorecer similhantes depositos, retardando a velocidade das correntes interiores ou das exteriores que dentro n’elles penetrassem. Na maior parte dos depositos, assim formados, predomina a argilla arenosa de côr avermelhada ou amarellada, sem grande consistencia, umas vezes mais ou menos estratificada, outras vezes sem nenhuns signaes de estratificação. Conforme o mechanismo do deposito e a natureza das partes depositadas, assim as camadas são ou extremamente molles ou tão endurecidas pelo calcareo que as impregna, que se não cortam sem dificuldade. Ás vezes nas camadas depositadas acham-se incorporados seixos, calhaus rolados, fragmentos de stalactites e pedras angulosas pela maior parte provenientes das paredes das cavernas. Alguns porém foram arrastados de fóra e de pequenas distancias pela agua corrente. Consideram os geologos os depositos interiores das cavernas como a continuação dos depositos exteriores superficiaes. Têem todos a mesma natureza e textura e até muitas vezes a mesma côr avermelhada.
Muitas cavernas tornam-se notaveis pela quantidade de ossos que encerram. Por isso lhes chamam commumente cavernas ossiferas ou cavernas de ossadas. Estes ossarios têem ás vezes grande espessura. Na caverna de Banwel, no condado de Sommersetshire, em Inglaterra, a sala maior de quinze metros de altura, estava cheia até ao tecto com um deposito de ossos. A regra geral é apparecer a camada molle dos ossos por baixo da camada dura calcarea ou stalagmitica. Algumas vezes acham-se invertidas, e outras vezes alternam camadas de uma com as de outra especie. Para explicar esta alternação importa considerar não sómente as causas já indicadas da formação dos depositos calcareos, mas tambem aquellas que operaram os depositos dos ossos. Primeiro que tudo convirá notar uma circumstancia importante, um facto capital, que em toda a explicação se ha de ter em vista. E vem a ser a grande variedade de animaes, cujos ossos se encontram juntos nas mesmas cavernas.
«As cavernas de Muggendorf e de Gailenreuth, diz Burgmeister, formadas na dolomia do terreno jurassico bavaro, são particularmente celebres. Da ultima têem extrahido ossadas pelo menos de mil individuos, dos quaes oitocentos pertencentes á especie do grande urso (Ursus spelœus), sessenta a uma outra especie do mesmo genero (Ursus arctoideus) e dez ainda a uma outra especie (Ursus priscus). As cento e cincoenta restantes são de lobos, hyenas, leões e texugos. As cavernas de Sundwig em Iserlohn continham restos de especies similhantes, sendo mais numerosos os do Ursus spelœus. A caverna de Kirkdale, na região oriental do condado d’York, contém pelo contrario, sobre tudo, ossos de hyenas com outros ossos roidos de cavallos, bois, veados, trazidos pelas hyenas. Ahi foi que Buckland fez as suas bellas investigações sobre o genero da vida primitiva d’estes animaes, e notou as camadas de excrementos juntos das paredes polidas pelas hyenas. Achou-se em Argou, departamento dos Pyreneus, uma caverna com animaes herbivoros, a qual de resto se ha de considerar como uma raridade. Occupa um schisto liasico, e continha principalmente ossos de cavallos, bois, veados e rhinocerontes»[61].
Os ossos das cavernas podem ter sido de animaes mortos ou dentro ou fóra d’ellas. Se ainda hoje são habitadas pelos morcegos, corujas e outras aves nocturnas e por grande variedade de animaes carniceiros, que muito que em epocas remotas egualmente o fossem, e que esses animaes de tantas classes e de tantas especies lá ficassem sepultados? Morreriam uns de morte natural deixando os seus restos incorporados no solo das cavernas. Outros seriam arrastados, como presas, pelos carnivoros para dentro d’ellas. Em fim, por occasião das inundações, era natural que animaes de especies differentes, e até inimigos, se recolhessem ás cavernas, pois quando é grande o perigo e commum, todos os instinctos cedem ao da propria conservação. Em tal caso, elevando-se o nivel da agua e tapando a boca da caverna e enchendo o seu interior, todos os animaes ali accumulados morreriam por asphyxia.
Todavia em muitas cavernas encontram-se os ossos maiores dos grandes mammaes, como os dos membros anteriores e posteriores, com os angulos arredondados e com as arestas comidas do attrito, e os ossos pequenos reduzidos a fragmentos disformes e boleados. Alterações taes provam que os ossos foram arrastados pela agua juntamente com os calhaus e por estes friccionados. Por outra parte, a natureza das rochas accumuladas com os ossos, differentes d’aquellas que constituem as paredes das cavernas, demonstra haverem-se formado as camadas ossiferas á custa dos terrenos exteriores. Finalmente não apparecerem esqueletos inteiros em taes depositos é ainda outro motivo para crer que, na maior parte das cavernas, os ossos procedentes de animaes, mortos fóra e não dentro d’ellas, seriam arrastados, por occasião das inundações, pela agua com os materiaes constituintes dos terrenos onde jaziam sepultados.
Por entre as ossadas de muitas cavernas têem apparecido ossos humanos e vestigios da industria primitiva, e, como algumas d’aquellas pertenciam a especies extinctas ou emigradas, ao mammouth, ao rangifer, ao urso, allega-se geralmente este facto entre as provas da antiguidade remota da especie humana. Porém na opinião de alguns tal prova é insufficiente, porque, dizem, se os vestigios do homem foram sepultados dentro das cavernas, muito bem o poderiam ser depois de lá existirem ossadas de animaes que tivessem vivido muitos milhares de annos antes. Se pelo contrario taes vestigios foram arrastados de fóra com as ossadas antidiluvianas, é claro que poderiam egualmente uns e outros ter idades mui differentes, e até fazer parte de terrenos mui diversos.
Estas objecções levaram os exploradores a pôr todo o cuidado nas explorações, de modo que os resultados obtidos não ficassem sujeitos a contradictas. Assim as relações de posição dos instrumentos de silex com os ossos dos depositos, o encontrarem-se no mesmo plano ou em planos inferiores, os entalhos feitos nos ossos, o modo por que foram quebrados para se lhes extrahir a medulla e finalmente os desenhos do mammouth ou do rangifer em objectos de osso, de chifre ou nas proprias presas dos animaes, como se encontraram em cavernas da Dordonha, tudo foi minuciosamente estudado e tudo mostrou haverem sido contemporaneos o homem e os grandes mammaes desapparecidos.
Uma das cavernas que mais concorreram para esclarecer a questão foi a de Cavillon, explorada pelo sr. Rivière entre aquellas que se descobriram na occasião de se construir o caminho de ferro de Genova a Menton e a Nice. No dia 26 de março de 1872 achou o explorador os ossos do pé de um esqueleto humano. O esqueleto estava de tal sorte adherente aos materiaes que o envolviam, que só, depois de oito dias de trabalho, se poude destacar d’elles. Estendido no decubito lateral esquerdo e com a maxilla inferior appoiada nas phalangetas da mão esquerda, jazia na attitude de um homem a quem morte subita e sem agonia surprehendesse durante o somno. Em roda do esqueleto acharam-se instrumentos de silex lascados, taes como pontas de frecha, pontas de lança e raspadeiras; um pedaço de puncção de osso, conchas de varios generos e dentes furados que tinham servido de ornatos; dentes do urso grande (ursus spelœus), do gato grande (felis spelœus), do rhinoceros tichorhinus e da hyena spelæa, especies caracteristicas da epoca do mammouth.
Apesar da sua remota antiguidade e do seu prognathismo, o craneo de Menton, pelo angulo facial, pela proeminencia de vertex, pelo grande volume da parte posterior, etc., assimilha-se aos craneos da mais perfeita das raças actuaes. Comtudo para contrapôr a este facto que tenderia a provar a invariabilidade do typo humano durante largos periodos de tempo, ha os craneos de Neanderthal, de Forbes’Quarry, de Brux, de Eguisheim e as maxillas encontradas na caverna de La Naulette e n’outros logares. Estes vestigios, de epocas mais remotas, demonstram a diversidade anatomica dos homens a quem pertenceram, em relação ao typo humano da actualidade.
Nos paizes, onde mais se cultivam os estudos prehistoricos, têem-se explorado as cavernas para colher os numerosos e importantes vestigios que ellas contêem do homem primitivo. Na Peninsula muitas estão já exploradas, mais em Hespanha que em Portugal, mas ha ainda muitissimas para explorar. Falta sobre tudo comparar os resultados obtidos e aquelles que por ventura se possam obter, para lançar alguma luz por entre as trevas espessas que involvem ainda hoje os tempos anteriores á historia.