Em 1865 Luiz Lartet explorou as cavernas do terreno jurassico da Sierra Cebollera, no termo de Torrecilla de Cameros, Nieva de Cameros e Ortigosa, nas mais notaveis das quaes, na superior e na inferior da Peña de Miel e na Lobrega, encontrou machados, facas, raspadores, ceramica e alguns utensilios de osso, pertencentes á epoca neolithica ou da pedra polida. As cavernas exploradas attribuia-as Lartet a tres diversas idades: 1.ª do rhinoceronte, mas de uma especie differente do R. tichorhinus que parece não ter atravessado nem os Alpes nem os Pyreneus. 2.ª Do boi primitivo, e unicamente d’elle, porque na Peninsula não apparecem vestigios do rangifer nem da maior parte dos mammiferos que nas cavernas da França lhe andam associados. 3.ª Das especies domesticas. Das cavernas da primeira idade suppoz o explorador que não seriam habitadas pelo homem na epoca do rhinoceronte. Nas da segunda idade achou instrumentos de osso e de pedra lascada, similhantes áquelles que em França caracterisam a epoca mesolithica, e nas da terceira idade depararam-se-lhe mais numerosos os silex polidos, os instrumentos de osso mais perfeitos, a ceramica, etc.[62]

O Capitão Brome explorou muitas cavernas do monte Calpe na bahia de Gibraltar. Pela situação geographica d’estas cavernas, os fosseis e os productos da industria humana aqui encontrados têem grande importancia para o estudo das origens ethnicas e das emigrações dos povos primitivos. Conheceu-o o governo inglez, e incumbiu os srs. Busk e Falconer de estudarem tão curiosos vestigios prehistoricos. N’uma d’aquellas cavernas, que chamam Genista, acharam estes naturalistas restos fosseis da hyena crocuta, especie africana ainda existente, do leopardo, lynce, gato do Cabo, cervo de Barbaria e de uma especie de ibex. Porém, como os instrumentos encontrados pertencem á epoca neolithica, é possivel que o homem habitasse as cavernas de Gibraltar posteriormente áquelles animaes. O celebre craneo da Pedreira de Forbes, similhante ao de Néanderthal, é que póde ser anterior á epoca da pedra polida e, portanto, contemporaneo de uma fauna differente da actual[63].

O sr. Vilanova explorou na provincia de Valencia as cavernas de Parpalló, na falda occidental de Monduber, no termo da cidade de Gandia; de Cova Negra entre as aguas de Bellus e a cidade de Jativa na margem esquerda do rio Albaida; de San Nicolás, no termo da Olleria; de Avellanera, no termo de Catadau, na falda septemtrional de Matamon; e finalmente das Maravillas, no termo de Gandia. Encontrou o explorador grande variedade de ossos, dentes, conchas, paus de veado, facas e pontas de frecha de silex, ceramica, etc. Estas cavernas attribuiu-as o sr. Vilanova á epoca paleolithica. Basta porém a presença da ceramica e dos animaes domesticos para se conhecer que seriam habitadas na epoca neolithica. O sr. Tubino tambem affirma que, sómente pelos fragmentos de silex, se não podem classificar as cavernas de Valencia na epoca paleolithica[64].

O sr. Mac-Pherson explorou a Cueva de la Mujer, situada n’um cerro chamado Mesa del Baño, junto do estabelecimento thermal de Alhama de Granada, a cincoenta metros sobre o rio Marchan. Em duas memorias, illustradas com muitas estampas, deu o explorador curiosa noticia dos vestigios descobertos em duas explorações successivas, uma no deposito superior, outra no deposito inferior d’esta caverna. Os vestigios foram fragmentos de ceramica, alguns tintos de encarnado com almagre; facas e lascas de silex; ossos furados para servirem de amuletos ou adornos, furadores ou puncções de osso; fragmentos de conchas; craneos humanos, ossos e dentes de varios animaes, alguns abertos no sentido longitudinal, talvez para lhes extrahirem a medulla; carvão e cinza; um bracelete feito de uma concha ([fig. 47]), etc.[65]

Nota-se grande similhança entre estes vestigios, os das cavernas de Gibraltar e de Albuñol na Andaluzia, e os das estações prehistoricas da epoca da pedra polida em Portugal, taes como a Fonte da Ruptura e a Pena de Setubal, a Cova da Estria, etc. No museu da Escola Polytechnica ou na Commissão geologica, talvez em ambas as partes, se conservam tambem fragmentos de louça tintos com almagre. Da exploração da caverna de Albuñol pelo sr. Gongora já demos noticia n’um dos capitulos anteriores[66].

Em Portugal têem-se emprehendido menos explorações que em Hespanha. Comtudo as do sr. Delgado nas cavernas de Cesareda, pelo cuidado com que foram feitas, pela minuciosidade e exactidão das noticias que publicou, serão em todo o tempo dos mais importantes subsidios para o estudo d’esta parte da prehistoria peninsular.

A Cesareda é um planalto de calcareo, situado ao norte da linha divisoria d’aguas do Tejo, a seis kilometros da costa do mar, e além do sopé septemtrional da serra de Monte-Junto. A Casa da Moura, a Lapa furada e a Cova da Moura foram as tres cavernas exploradas na Cesareda, e descriptas em 1867 pelo sr. Delgado. A primeira é de todas tres a mais importante, não sómente pelas suas dimensões, mas tambem pelo numero e variedade de restos humanos e de animaes que se descobriram. Consta interiormente a caverna de duas salas irregulares com abobadas em alturas differentes; a da sala de fóra mas baixa e inclinada, a da outra sala, muito alta e similhante a um zimborio. Dá entrada para a caverna um poço vertical rectangular, com uns quatro metros de profundidade, e tres na sua maior largura.

Verificou-se haver na sala de fóra dois depositos de idades differentes sobrepostos. No superior abundavam os ossos humanos e os utensilios e instrumentos de pedra polida, de osso, de ponta de veado e de barro. Pelo contrario no deposito inferior appareceram apenas alguns silex lascados, o fragmento de um puncção de osso e um craneo humano mesocephalo. Entre os objectos achados no entulho superior da sala exterior da Casa da Moura é muito para notar-se o fragmento de um osso longo, provavelmente um humero humano, cheio de terra amassada com vertebras pequenas e ossiculos que pareceram de morcego. Na sala interior appareceu tambem outro fragmento de osso humano longo, similhantemente cheio de terra amassada com ossos de morcego[67].

O sr. Delgado admitte, como cousa provavel, que os habitantes da Casa da Moura fossem anthropophagos. A sua opinião tem por fundamento os factos seguintes: 1.º Serem muito mais numerosos os ossos longos que os chatos ou curtos. 2.º Acharem-se alguns partidos no sentido longitudinal. 3.º Faltarem á maior parte as extremidades articulares. 4.º Terem pertencido a maior parte das maxillas a individuos novos, e algumas a crianças de tenra idade. 5.º Parecerem alguns excavados por dentro. 6.º Não ter apparecido senão um craneo inteiro, porém muitos partidos em fragmentos pequenos[68].

Esta questão da anthropophagia dos habitantes das cavernas, durante os tempos prehistoricos, tem sido muito debatida. É obvia a sua importancia. A existencia de tal costume importaria necessariamente a idéa de degradação e inferioridade moral. Spring é quem mais tem querido persuadir que os homens prehistoricos, teriam sido anthropophagos, estribando-se n’alguns dos factos observados na Casa da Moura, já antecedentemente conhecidos de outras cavernas.