Na opinião de alguns auctores as provas adduzidas para qualificar de anthropophagos os habitantes das cavernas são insufficientes. Os ossos podem partir-se sómente pela acção do peso da terra que os cobre. A fractura operada em taes circumstancias é transversal. Porém sob a influencia da atmosphera, segundo affirma Dupont, é possivel tomarem os fragmentos a fórma de lascas alongadas, similhantes áquellas que resultariam da fractura intencionalmente feita pela mão do homem. Os esquimaus contemporaneos partem ainda hoje os ossos compridos com os calhaus rolados. Por muitas vezes os percutem nas extremidades para fazer saltar fóra as epiphyses. Depois fendem o corpo do osso com o mesmo calhau. Em certas cavernas têem apparecido ossos partidos por esta fórma, nos quaes se observam os vestigios das percussões que padeceram. Porém nos ossos humanos ainda se não apontaram taes vestigios. É possivel que estes ossos, apparecidos em tantas cavernas e mencionados como provas de anthropophagia, não sejam senão restos de corpos ali enterrados. Acharem-se tão divididos em fragmentos é um facto que se explica ou pelo peso da terra e pela acção do ar, ou por terem entrado as féras dentro das cavernas para revolver a terra e partir os ossos. As cavernas que o homem hoje explora o têem sido já antecedentemente pelas raposas e texugos. A raposa, dizem, chega a exhumar as ossadas, por mais antigas que sejam, para as roer no tempo da neve ou em quanto nutre os filhos; isto é quando a fome a obriga a supprir a falta de alimentos com substancias em que a materia organica deve ter quasi inteiramente desapparecido. Esta causa sería pois sufficiente para explicar a falta das extremidades articulares nos ossos longos, e o desgastamento do canal medullar, observados pelo sr. Delgado[69].
Razões ponderosas obstam a que se considere a anthropophagia costume geral dos habitantes das cavernas. Excepto em condições excepcionaes, como sob o imperio da fome ou de instinctos depravados ou corrompidos, nenhum animal se alimenta com as carnes de qualquer cadaver de um individuo da sua mesma especie. Esta repugnancia deriva provavelmente da lei geral da conservação especifica, segundo a qual, os individuos da mesma especie não podem destruir-se uns aos outros. Os selvagens anthropophagos são excepções. D’alguns se sabe entre os quaes se tem conservado este costume, somente pela razão de não terem carne de animaes para se alimentarem. Em certas ilhas do Pacifico cessou a anthropophagia logo que os navios europeus as forneceram de gados que antecedentemente não tinham[70].
Dos sentimentos de horror, de medo, de nojo que entre as mais antigas das nações civilisadas inspiravam os cadaveres, a ponto de se julgar impuro o individuo que tivesse tocado algum, concluiremos a incompatibilidade da anthropophagia com as condições sociaes de qualquer povo, entrado na via do progresso e capaz de se elevar pelo desenvolvimento das faculdades intellectuaes e moraes, a um grau superior de civilisação e cultura.
Alguns dos craneos inteiros ou mutilados, descobertos em Hespanha na Cueva de la Mujer da Alhama de Granada, e em Portugal no Cabeço da Arruda e nas cavernas de Cesareda pareceu ao sr. Quatrefages reproduzirem alguns dos mais proeminentes dos caracteres do celebre craneo de Forbes’Quarry em Gibraltar, e poderem attribuir-se ao cruzamento de individuos d’aquella mesma raça com os de outra raça differente. Taes foram as razões que induziram o sr. Tubino a referir ao mesmo periodo da epoca neolithica as estações prehistoricas de Alhama, de Cesareda e do Cabeço da Arruda[71].
NOTAS DE RODAPÉ:
[61] Burgmeister, Histoire de la création. Pariz 1870, pag. 591 e 592.
[62] Vilanova, Prehistorico español—Epoca neolithica—Museo español de antigüedades, tomo 1.
[63] Tubino, Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades, tomo VII, 1876.
[64] Vilanova, Mem. cit. do Museo español de antigüedades e dos Anales de la sociedade de historia natural.
[65] G. Mac-Pherson, La Cueva de la Mujer. 1.ª e 2.ª parte.