5.ª Os cadaveres apparecem collocados em leitos horisontaes e com pequenas pedras em redor dos craneos[116].

Aos dolmens de Portugal não são applicaveis as leis 2.ª e 3.ª. As outras sómente depois de novos estudos se poderão verificar. O sr. Pereira da Costa encontrou machados de pedra nas antas de Alcogulo e n’outras[117]. N’uma de Niza appareceu a grande cabeça da lança de silex [fig. 14]. Na anta de Bellas encontraram-se facas e pontas de frechas de silex, contas de collares de schisto e de calcareo, o fragmento de osso esculpido com ornatos triangulares [fig. 30], e uma machadinha de schisto similhantemente ornada, e do mesmo genero d’aquella que appareceu em Monte-Real, e a [fig. 31] representa. N’uma anta de Pavia appareceram quatro machadinhas similhantes de schisto com os mesmos ornatos triangulares.

Na sepultura de Martim Affonso, perto de Muge, encontraram-se objectos do mesmo genero, e a notavel insignia de schisto que suppomos ser um baculo, [fig. 33]. D’este logar, importantissimo para o estudo da prehistoria em Portugal, nos deu o sr. Pereira da Costa as seguintes informações: «A sepultura de Martim Affonso não é, como á primeira vista parece, de sujeito assim chamado, mas um sitio que é conhecido por este nome, na propriedade do duque de Cadaval (residente em Paris). Esta sepultura era de tres lages compridas e duas estreitas nas extremidades, e tinha um capeamento de lages pequenas. Dentro continha ossos de um esqueleto, dos quaes só se aproveitaram alguns fragmentos de ossos longos, e o mais que V. viu no Museu. Esta propriedade do duque é nas margens da ribeira de Muge, e perto do Cabeço da Arruda, que tambem pertence ao mesmo duque».

Depois de fallar do baculo, em que não considera a fórma d’esta insignia, porém a do phallus, accrescenta: «Com esta peça, além dos ossos, havia nove facas de silex, uma cabeça de lança de silex, e varios vasos pequenos de barro».

Nos dolmens de Portugal não têem até hoje apparecido objectos de cobre ou de bronze; mas as explorações feitas são mui poucas ainda para se deduzir d’ellas uma lei geral. É possivel que os dolmens, onde se encontraram as insignias de schisto pertençam já á época do bronze, apesar de se não ter achado n’elles esta liga metallica. A sepultura de Martim Affonso, onde appareceu o baculo, prova-nos que o povo que usava taes insignias sabia construir sarcophagos para os cadaveres, o que denota certo grau de civilisação. Em quanto porém se não explorarem mais antas e mais methodicamente do que até hoje, não será possivel passar além d’esta conclusão, cuja importancia, ainda assim, não é pequena. As insignias de schisto são caracteristicas, e, só de per si, denunciarão o povo ou um dos povos constructores dos dolmens, logo que se encontrem n’outras partes. Infelizmente não consta que até hoje se tenham descoberto fóra de Portugal. Na Scandinavia têem apparecido umas enxadas de pau de veado com esboços mais rudes que os do Périgord, e que representam quadrupedes, corsas talvez. Ao lado d’estes esboços vêem-se traços rectilineos formando os desenhos triangulares das nossas placas de schisto. Se a esta circumstancia accrescentarmos que os dolmens mais similhantes ao maior numero e tambem aos mais imperfeitos de Portugal são os da Dinamarca, persuadir-nos-hemos de que ha toda a probabilidade de que gentes da mesma raça povoariam ou civilisariam nos tempos prehistoricos certas regiões da peninsula Iberica e da peninsula Scandinava.[118]

Se os dolmens são contemporaneos das nuraghas, as excavações feitas n’estes monumentos devem dar resultados comparaveis áquelles que temos mencionado. Apesar das poucas explorações até hoje emprehendidas, sabe-se que nos talayots das Baleares[119] e nas nuraghas da Sardenha se tem encontrado objectos de cobre e de bronze. N’algumas d’esta ultima ilha têem apparecido facas de silex. Portanto a maior parte de taes construcções remontam á epoca do cobre ou do bronze; e algumas á epoca da pedra polida. Isto mesmo se confirma pelo apparelho. Umas, de pedras brutas, são anteriores provavelmente á invenção do cinzel; outras, de pedras afeiçoadas, manifestam já a acção de instrumentos de metal. Affirma o abbade Spano que algumas nuraghas são feitas na parte inferior de pedras brutas, e na parte superior de pedras apparelhadas, parecendo aquella da epoca da pedra polida, e esta da idade dos metaes. O apparelho irregular corresponde a uma camara inferior; o regular a uma camara superior que posteriormente sería accrescentada á primeira. Demais são frequentes estes casos de accrescentamentos e reparações das nuraghas primitivas em varias epocas[120]. Dos poucos estudos até hoje emprehendidos nos dolmens de Hespanha e de Portugal deduziremos os seguintes corollarios:

1.º Os dolmens da Peninsula, como outros da Europa, como as nuraghas da Sardenha, foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do bronze ou do cobre.

2.º Geralmente fallando, os dolmens de Portugal são mais imperfeitos que os da Andaluzia.

3.º É provavel que a antiga raça que na Scandinavia construia os dolmens e fabricava enchadas de ponta de veado fosse a mesma que na Iberia occidental construisse ou introduzisse o costume de construir os dolmens, e se servisse de insignias de schisto com ornatos triangulares.

Para que serviriam os dolmens ou com que fim os erigiriam? A opinião mais commum é que os dolmens serviriam para guardar as cinzas dos mortos. Assim se explica até mui naturalmente a origem de taes monumentos, considerando-os ou como um meio de supprir a falta das cavernas sepulchraes, ou como um aperfeiçoamento ou desenvolvimento do montão de pedras que primitivamente lançariam sobre o cadaver. Tambem não ha impossibilidade em crêr que o dolmen, erigido primeiro sobre o cadaver, no proprio logar da morte, fosse depois construido onde parecesse mais conveniente, e o cadaver transportado do sitio, em que jazera, para a sua nova morada.