Na peninsula Iberica já vimos como esta lei se verifica, pois que nas regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha não consta haver dolmens. Vimos tambem como n’uma região, onde os dois systemas se encontraram parece ter-se operado entre elles uma singular fusão, se não é pura casualidade o que se observa na Cueva de la Pastora em Castilleja de Guzman, a oeste de Sevilha, na Andaluzia[113].
Da lei da correspondencia dos dolmens ás terras litoraes ou pouco distantes dos mares, deduz-se que a origem do costume de erigil-os se ha de buscar n’algum ou n’alguns povos já em certo grau de civilisação, os quaes percorrendo os mares da Europa, transmittiriam esse mesmo e outros costumes aos povos com quem estivessem em contacto, e que passariam assim da phase, caracterisada pela habitação das cavernas, áquella que se distingue pela construcção dos dolmens. Similhantemente, nos seculos XV e XVI, os portuguezes e os hespanhoes alçaram cruzes e erigiram templos pelos vastos litoraes e pelas ilhas da Africa, Asia, America e Oceania, convertendo os indigenas ao christianismo, e transmittindo-lhes aquelle mesmo costume, caracteristico da civilisação que representavam. Devemos porém acreditar que este ou outro movimento civilisador dos tempos prehistoricos acharia de certo menos resistencia, por ser menor a differença entre o estado dos povos civilisandos e o dos povos civilisadores.
Da lei da incompatibilidade dos dolmens com as construcções cyclopeas deduz-se que estes dois generos de monumentos representam duas civilisações prehistoricas tambem incompativeis; e que, portanto, seriam contemporaneos os povos constructores dos primeiros e aquelles que erigiram as segundas. Ora, como abundam os monumentos cyclopeos nas Baleares[114] na Sardenha e na peninsula Italica, e como as costas orientaes da peninsula Iberica defrontam com aquellas ilhas e peninsula, concluiremos que até a essa parte da Hespanha se extenderia a influencia da civilisação pelasgica, e que esta mesma civilisação repugnaria o costume de construir os dolmens e os demais que a este andariam associados.
Na Peninsula a cintura megalithica extende-se desde o golpho da Biscaia, no logar onde as vagas do Atlantico se debatem contra as vertentes escarpadas dos Pyreneus, até ao golpho de Almeria, onde as ultimas ramificações da Serra Nevada se escondem nas aguas menos agitadas do Mediterraneo. Toda a costa oriental desde o cabo de Gata até ao cabo de Créus, comprehendendo quasi seis graus de latitude, não tem dolmens, ou pelo menos não se tem até hoje dito que os haja nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Por onde se vê que as construcções pelasgicas sómente correspondem ás regiões banhadas pelo Mediterraneo, e os dolmens ao litoral do Atlantico e ao do Mediterraneo mais proximo do Estreito de Gibraltar, que serve para communicar os dois mares.
Com a civilisação portanto com que se hão de relacionar os dolmens da Scandinavia, das ilhas Britannicas, das costas septemtrionaes e occidentaes da França, com essa mesma civilisação se devem relacionar tambem os dolmens das regiões septemtrionaes, occidentaes e meridionaes da peninsula Iberica. Ignorando-se o povo que introduziu o costume de construir os dolmens, e a epoca de tal introducção, posta a lei da antinomia dos monumentos megalithicos e dos pelasgicos, seguir-se-ha, como consequencia necessaria, o terem sido todos contemporaneos. Vejamos até aonde poderemos chegar, tentando resolver com estes dados o problema da antiguidade dos dolmens. Os objectos encontrados dentro nos dolmens, armas, instrumentos, ornatos, em muitos são sómente de pedra polida, n’outros de pedra polida e de cobre ou de bronze, n’outros sómente de cobre ou de bronze, n’outros em fim, de alguma das especies mencionadas e de ferro[115]. N’alguns, têem apparecido objectos de ouro, posto que o fabrico d’este metal devesse preceder o do ferro e até o do cobre, como se provou na caverna de Albuñol da Andaluzia. Encontram-se tambem commumente vasos de barro inteiros ou partidos, toscos e sem ornatos, ou adornados com riscos ou impressões digitaes ou unciaes. A disposição dos riscos é irregular nos mais imperfeitos, regular ou symetrica nos menos imperfeitos. Estes achados provam, em geral, que os dolmens foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do bronze; e alguns mais raros na epoca do ferro.
Na Peninsula não têem explorado methodicamente os dolmens e os tumulos. Apenas consta de certos objectos n’alguns encontrados. O sr. D. Manuel de Gongora, por exemplo, achou em varios dolmens da provincia de Jaen ossos dispersos, armas de cobre, anneis do mesmo metal, fragmentos de louça e armas de silex. Este observador, entre outras leis, applicaveis aos dolmens que observou, estabeleceu as seguintes:
1.ª Entra-se n’estes monumentos por estreitas passagens feitas de grandes pedras, excepto nos de Dilar e nos de Gitanos.
2.ª Excepto os das Majadas del conejo, todos são quadrangulares.
3.ª Interiormente os dolmens estão lageados com grandes pedras.
4.ª Excepto um sómente, em que apparece uma peça de bronze, em nenhum se encontram armas ou objectos que não sejam de pedra ou de cobre.