Hoje, á falta de noticias positivas para a historia dos dolmens, não faltarão archeologos que raciocinem da mesma sorte, e cheguem a conclusões similhantes. Taes opiniões não convirá recebel-as senão com as duvidas que inspiram as hypotheses infundadas. Infelizmente poucas deixarão de o ser em assumpto de tamanha obscuridade.
Vista á primeira face a distribuição geographica dos dolmens, occorreu naturalmente a idêa de que um povo emigrante, constructor d’esses monumentos, percorreria do sul para o norte ou vice versa as regiões onde se encontram. Na opinião do sr. Bonstetten, a Criméa sería o centro d’onde teria partido o povo dos dolmens, seguindo duas vias differentes; uma para a Italia e Corsega, outra para o norte, pela Silesia, até ás margens do Baltico. D’aqui uma causa desconhecida obrigaria os constructores dos dolmens a emigrarem para o poente dirigindo-se para a Normandia occidental e para a Bretanha, d’onde passariam á Inglaterra, pelas ilhas Jersey e Guernesey, e á Irlanda, pela ilha de Anglesey.
A parte restante do povo, que teria ficado no continente, só mais tarde se atreveria a invadir a Gallia, marchando para o sul. Chegado ao Gironda, abandonaria rapidamente as costas do mar, fugiria das areias incultas da Gascunha, e, tomando uma direcção contraria ao curso do Dordonha, atravessaria a França obliquamente e chegaria ao golpho de Lyão. Não lhe serviriam de barreira os Pyreneus; atravessal-os-hia, e, seguindo a vertente meridional d’estas montanhas, occuparia Portugal, desceria mais ao sul e atravessaria obliquamente a Hespanha pelas provincias de Cordova, Granada e Malaga; passaria o mar, espalhar-se-hia pelo litoral da Africa septemtrional, e pararia finalmente na antiga Cyrenaica, nas fronteiras do Egypto.
O sr. Bonstetten, fazendo partir o povo dos dolmens da Criméa, não julga ser esta a sua patria, porém alguma região da Asia, d’onde, pelos desfiladeiros do Caucaso, passaria á Europa, preludiando assim as posteriores emigrações de celtas, godos, hunos e vandalos[107].
O sr. Bertrand suppõe tambem ter vindo da Asia o povo dos dolmens, que sería de uma raça rebelde a toda a transformação e a toda a absorpção pelas raças superiores. Repellida das regiões centraes d’aquelle continente para o norte, seguiria as margens do Baltico demorar-se-hia na Dinamarca; d’aqui de novo repellida, subiria até ás Orcadas; depois, descendo pelo canal que separa a Irlanda da Inglaterra, chegaria, de estação em estação, primeiro á Gallia, depois a Portugal e finalmente á Africa, onde os restos de tal gente se extinguiriam, destruidos pela força de outra raça mais civilisada[108].
Contra a opinião de Bertrand protestam os objectos de pedra, barro ou metal, encontrados nos dolmens, por onde se prova que as gentes constructoras d’estes monumentos não eram refractarias á civilisação. E, admittido este facto, a sua consequencia necessaria, será que taes gentes, obedecendo á lei do progresso, deixariam provas de mais avançada civilisação nos paizes que ultimamente occupassem. Ora os archeologos concordam em que não sómente a architectura megalithica é mais perfeita no norte do que no sul, mas, tambem mais bem acabados e de mais preço os objectos achados nos dolmens septemtrionaes; e que portanto, se houvesse de se attribuirem os dolmens a um povo emigrante, este povo deveria ter seguido do sul para o norte e não do norte para o sul, como Bonstetten e Bertrand suppozeram[109]. Por outra parte, quem se der ao trabalho de marcar n’um mappa as regiões dos dolmens, reconhecerá que algumas de taes regiões ficam inteiramente separadas por grandes distancias, como as da Criméa e as da Palestina.
Em regiões tambem muito afastadas, como a Bretanha e o Jutland apparecem n’uns dolmens sómente objectos de pedra polida, n’outros encontram-se instrumentos de pedra e de bronze. Parece portanto que os povos constructores dos dolmens passariam synchronicamente, e em logares muito distantes, de uma a outra phase industrial pelas influencias civilisadoras de povos mais avançados. Têem notado tambem nos dolmens das diversas localidades certas differenças especificas que se oppõem a que se reputem construidos por um só povo. Em fim, a mais concludente de todas as provas da diversidade dos povos que erigiram os dolmens está na variedade de restos humanos achados em taes monumentos. Na opinião do sr. Quatrefages não póde haver duvidas a este respeito. Nos dolmens da Dinamarca, por exemplo, apparecem dois typos humanos misturados, nos de Lozère outros dois, e d’estes quatros typos não ha dois que se assimilhem[110].
Alguns dos mais auctorisados archeologos modernos, taes como Desor, Worsaœ, Vogt, Quatrefages, Broca e Mortillet, rejeitam absolutamente a idêa da existencia de um só povo constructor dos dolmens. Preferem antes acreditar que varios povos e varias raças, que se não sabem especificar ou denominar, erigiriam os megalithos pelas regiões onde se encontram, estribando esta asserção n’alguns dos factos anteriormente citados contra as hypotheses de Bonstetten e de Bertrand. Julgam mais que o costume de construir os dolmens se propagaria do sul para o norte, em direcção contraria áquella que faziam seguir ao povo emigrante.
Não tem sido notada na distribuição geographica dos dolmens uma circumstancia que se nos afigura importantissima; e vem a ser o encontrarem-se quasi sempre nas regiões proximas do mar. Começando pelo sul deparam-se-nos primeiramente os da costa septemtrional da Africa, na Argelia e na Cyrenaica, juncto das fronteiras do Egypto, todos no litoral do Mediterraneo. Depois os de Sinai e da Arabia nas costas do Mar Vermelho, os da Palestina, proximos do Mediterraneo. Em frente da costa septemtrional da Africa, para áquem do Estreito, os de Hespanha e Portugal, occupando por uma parte a Andaluzia, no litoral do Mediterraneo; por outra parte o litoral portuguez e a Galiza, banhados pelo Atlantico; e finalmente as costas meridionaes do golpho de Biscaia. Na França a região dos dolmens está tambem em similhantes condições maritimas. Defrontam com o Mediterraneo, como os da Andaluzia, apparecem do outro lado do golpho da Biscaia nas margens do Gironda; vêem-se em fim e em maior numero na Bretanha e na Normandia, nas costas da Mancha. Observa-se a mesma lei nos da Inglaterra e da Irlanda. Os da Europa septemtrional occupam regiões banhadas pelo mar do Norte ou pelo mar Baltico, ou pouco distantes das suas aguas. Com razão pois advertiu Bertrand abundarem os dolmens pelas regiões occidentaes e faltarem nas regiões orientaes da Europa. Mas este facto não é senão a consequencia da posição relativa d’aquellas regiões, das quaes as do occidente ficam á parte do mar e as do oriente mais ou menos distantes[111].
Outra lei da distribuição geographica dos dolmens vem a ser a incompatibilidade d’estes monumentos com os cyclopeos. «As construcções cyclopeas e os dolmens, diz Rougemont, excluem-se reciprocamente ao sul de Caucaso, dos Alpes e dos Pyreneus. A Perêa e o Caucaso, as duas patrias dos dolmens não têem muros feitos de pedras irregulares. A Aramêa, aonde referimos o berço da architectura cyclopea, não tem dolmens»[112].