[162] Emile Burnouf, L’âge du bronze, Revue des deux mondes, 15 juin 1877, pag. 752 a 782.
[163] Ibidem.
[164] E. Burnouf, loc. cit.
CAPITULO IX
ORIGENS ETHNICAS
Os finnicos e os vasconços.—Os seus idiomas agglutinatívos.—Origem turania dos finnicos.—Será commum aos vasconços?—Provas deduzidas da philologia e da anthropologia.—Hypothese de Retzius e sua classificação das raças humanas.—Refuta-se esta hypothese.—Opiniões dos philologos ácerca da linguagem vasconça.—Os mais antigos dos craneos da Peninsula e da Europa.—Craneos fosseis de Néanderthal e de Gibraltar.—Outros do Cabeço da Arruda, Cesareda e Cueva de la Mujer.—Maxillas.—Raça de Cro-Magnon.—Sua dístribuição geographica.—Povoaria a peninsula Iberica?—Será representada ainda hoje pelos beréberes?—Factos comprobativos.—Necessidade de novas observações.—Os beréberes e os antigos egypcios.—Povos mediterraneos.—Sua civilisação ha tres mil annos.—Extender-se-hia á Peninsula?—Conclusões.
Nos extremos da Europa, entre os pantanos da Finlandia, no meio das brenhas e fraguras dos Pyreneus, remanecem, com os nomes de finnicos e vasconços, os ultimos representantes de duas raças estranhas. Parece que outros povos mais civilisados, a quem teriam de ceder o passo e de abandonar os logares amenos e apraziveis, onde em principio habitariam, os foram de tempos a tempos repellindo e internando para as suas vivendas actuaes. O insolito da linguagem, dos costumes, das propensões, em summa do typo ethnico, em todas as epochas tem feito com que lhes attribuam maior antiguidade que aos outros povos da Europa. A linguagem, sobre tudo, torna-se por extremo notavel, pelo seu caracter agglutinativo, entre idiomas, que, por serem flexivos, correspondem a um grau superior de cultura e desenvolvimento intellectual.
Convém saber que os philologos modernos admittem tres phases distinctas na evolução da linguagem: o monosyllabismo, a agglutinação e a flexão. Ainda hoje alguns povos se conservam na primeira d’estas phases; outros persistem na segunda; outros, em fim, mais perfectiveis, mais dispostos a modificar-se, obedecendo á lei do progresso, elevaram-se á terceira. Ora, assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien (porque n’outras provincias da China a linguagem offerece o curioso phenomeno da transição da primeira para a segunda phase) assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien parece incapaz de passar do monosyllabismo á agglutinação, e muito mais á flexão, assim tambem o finnico e o vasconço têem conservado até hoje, no meio e em contacto de povos que fallam idiomas flexivos, a sua antiga linguagem agglutinativa.
Com razão pois se tem considerado estes dois povos como subsidios importantes para a solução do problema das origens ethnicas da Europa. Porquanto, determinada a raça ou determinadas as raças d’onde procederam os finnicos e os vasconços, conhecer-se-hiam desde logo os predecessores dos mais antigos dos povos que a historia menciona. Aos vasconços, isolados como estão, e distantes de outros povos com idiomas agglutinativos, não se lhes póde rastejar a stirpe, mas quem seguir attentamente os passos e vestigios dos povos finnicos para as partes orientaes, lá irá encontrar a mesma raça na Asia; pela Siberia occidental, dilatando-se até ao rio Jenessei e até aos montes Altai. E pois se vê confinar ahi, da parte do nascente, com mongoes propriamente ditos, e, da parte do sul, com turcos e tartaros, não é muito que se tenham os finnicos como um ramo do grande tronco mongolico, e se designem tanto a estes, como aos outros povos com que se emparentam, pelo nome generico de turanios, da região que parece ter-lhes sido berço, para os distinguir dos aryos ou iranios, povos oriundos não do Turan, mas do Iran.
Procederiam, porém, os vasconços egualmente do Turan, e pertencerão por conseguinte á raça mongolica? O caracter agglutinativo da linguagem, só por si, não basta para demonstrar identidade de origem ou de raça. Homens brancos, amarellos e negros fallam idiomas agglutinativos em varias partes do mundo. Mas Luciano Bonaparte e Charancey julgaram achar outras analogias particulares entre o finnico e o vasconço, e entenderam que seriam ambos da grande familia das linguas turanias do norte da Asia[165]. No campo da anthropologia cuidou Retzius ser commum a finnicos e vasconços a mesma fórma do craneo. Assim a identidade ethnica d’estes povos parecia provada por duas das sciencias que mais competentemente o poderiam fazer.
Deixaremos aos philologos a analyse e discussão da prova philologica, por exigir conhecimentos geraes de linguistica e especiaes dos idiomas agglutinativos. Mas, para bem se avaliar a prova anthropologica, importa-nos dizer algumas palavras ácerca da hypothese de Retzius.