A côr da pelle, da iris e do cabello, por uma parte, e por outra parte a distribuição geographica, têem servido de elementos fundamentaes á maior parte d’aquelles que tractaram de classificar as raças humanas. Todavia nem Blumenbach, nem Cuvier, nem Morton, nem Agassiz, nem qualquer dos auctores de classificações principalmente fundadas nos caracteres referidos, deixaram de prestar a devida attenção aos da fórma e capacidade do craneo. Tal é com effeito a importancia d’estes caracteres, que, relativamente aos de outros orgãos, muito bem poderemos consideral-os como subordinadores.

Retzius foi quem primeiro classificou as raças humanas sómente pelas mais apparentes das differenças anatomicas observadas nos craneos. A classificação do celebre medico sueco, ha poucos annos fallecido, é tão simples como engenhosa. Todos os craneos humanos são ou dolichocephalos (alongados), ou brachycephalos (arredondados). Admittida esta divisão geral, as raças humanas, segundo o auctor, dividir-se-hiam tambem em raças dolichocephalas e raças brachycephalas. Cada uma d’estas classes se subdividiria em raças orthognathas (com maxillas verticaes) e em raças prognathas (com maxillas inclinadas de trás para diante e de cima para baixo)[166].

No tempo de Retzius os mais antigos dos craneos que na Scandinavia se conheciam eram brachycephalos; e, como os dos finnicos o fossem tambem, e se julgasse o mesmo dos vasconços, suppoz aquelle anthropologo que a Europa, antes de ser habitada pelos povos actuaes da raça iranía, o teria sido por outros da raça turania, dos quaes o maior numero sería destruido pelos primeiros, e o resto afugentado para as vertentes dos Pyreneus e para as regiões pantanosas da Finlandia.

Outro povo, não menos antigo, na opinião de alguns procedente da Peninsula, e, portanto, aparentado com os vasconços, seriam os liguros. No tempo de Herodoto e de Hecateu de Mileto habitavam uma parte da Italia. Antecedentemente haviam fundado Genova, e em epoca ainda mais remota, mil e trezentos ou mil e quatrocentos annos antes de Jesus Christo, passavam á Sicilia com o nome de siculos; e expulsavam d’ahi os sicanos, bem como, alguns seculos antes, os haviam já expulsado das margens do rio Sicano da Iberia[167]. Os liguros tinham mediana estatura, olhos e cabellos negros e a cabeça redonda. Como por estes caracteres parecesse não pertencerem ás raças iranias, associaram-os tambem aos vasconços e finnicos, reportando-os á raça mongolica e constituindo com todos a população primitiva da Europa. Os liguros seriam dos povos autochtonos totalmente destruidos, chegando a perder-se a sua linguagem, que ninguem hoje sabe qual fosse, mas que, segundo a hypothese, deveria pertencer ao grupo das agglutinativas, e assimilhar-se, portanto, ás dos finnicos e dos vasconços[168].

Todas as apparencias pareciam pois em favor da hypothese. Povos de raça mongolica, taes como os finnicos, liguros e vasconços, habitariam em epocas remotissimas a Europa. Viriam depois os aryos que destruiriam os liguros e porventura outros povos, cuja memoria se perdesse, e deslocariam os finnicos e os vasconços para a Finlandia e para as vertentes meridional e septemtrional dos Pyreneus.

A hypothese de Retzius importava necessariamente: 1.º A brachycephalia dos mais antigos dos craneos humanos fosseis da Europa; 2.º A brachycephalia das raças mongolicas ou turanias; 3.º A brachycephalia dos finnicos, liguros e vasconços; 4.º finalmente, a dolichocephalia das raças aryas, e portanto da maior parte dos actuaes europeos. Contra a opinião de Retzius está hoje demonstrado: 1.º Que os mais antigos dos craneos humanos fosseis encontrados na Europa são dolichocephalos; 2.º Que a brachycephalia não é caracter exclusivo da raça mongolica ou de qualquer outra, mas que em cada raça ha uns craneos brachycephalos e outros dolichocephalos, predominando porém uns mais outros menos conforme os grupos ethnicos; 3.º Que os finnicos são brachycephalos, mas os vasconços hespanhoes dolichocephalos; 4.º Que entre os aryos ha tambem craneos redondos ou brachycephalos. Além d’isto a diversidade dos typos ethnicos dos finnicos e dos vasconços não consiste unicamente na fórma do craneo. Os primeiros têm grande estatura, cabello muito louro e olhos azues: os segundos são morenos com olhos e cabellos de côres escuras.

Destruida a prova anthropologica, resta-nos a prova philologica. Já dissemos que reservariamos aos philologos a analyse e discussão d’este ponto. Entretanto, limitando-nos aos argumentos de auctoridade, poderemos ainda mostrar que a prova não tem o valor que alguns lhe attribuiram. Com effeito, sendo extremamente communs na Asia, Africa e America os idiomas agglutinativos, tanto se póde relacionar o euskara (lingua dos vasconços) com o finnico da Europa, como com qualquer das innumeras linguas da mesma classe d’aquelles tres continentes. E na verdade todas essas hypotheses têm seus propugnadores. O atraso da philologia comparada e a imperfeição dos methodos de demonstração fazem possivel a defesa de todas as opiniões.

Modernamente porém vae prevalecendo a tendencia para reunir no mesmo grupo o euskara e certas linguas da America. A analogia, segundo Pruner-Bey, está na indole geral da linguagem euskara, na construcção da grammatica, e finalmente no systema de numeração. Whitney, sem affirmar decisivamente a analogia do vasconço com os idiomas americanos, entende que no Velho-Mundo não ha nenhum que lhe seja tão similhante[169]. Hovelacque, posto que censure aquelles que não hesitam em suppôr intimo parentesco entre o chippeway e o lénâpé ou outras linguas da America e o euskara, confessa comtudo haver certas analogias de conjugação entre os verbos das primeiras e os da segunda. Nota mais uma particularidade commum aos idiomas dos vascongados e de alguns povos americanos e vem a ser a composição por syncope. O vasconço faz, por exemplo, de ortz, nuvem, e de azantz, ruido, ortzanz, trovão ou, litteralmente, ruido da nuvem[170]. Em fim Max-Müller reune o vasconço, o georgiano e as linguas agglutinativas da America no mesmo grupo que chama das linguas holophrasticas, terceiro das agglutinativas, e colloca a lingua dos finnicos separadamente no segundo grupo das linguas turanias[171].

Mais adiante veremos que não sómente a philologia, mas tambem a archeologia propende a estabelecer interessantes relações entre os habitantes prehistoricos da Iberia e os de certas regiões da America. Por agora, inutilisado o fio que Retzius propozera, para servir de guia no labyrintho das origens ethnicas da Europa em geral e mais em particular da Peninsula, buscaremos outro que nos offerecem os ultimos descobrimentos da paleontologia humana.

Dentro dos limites d’esta sciencia, que não passa ainda para além da idade quaternaria, os vestigios dos primeiros habitantes da Peninsula correspondem ás estações prehistoricas de San Isidro, perto de Madrid, e da pedreira de Forbes em Gibraltar. Consistem os primeiros em instrumentos de silex, os quaes, pelas fórmas e lascado, se assimilham de tal sorte áquelles que se tem descoberto em Saint-Acheul, que mui naturalmente se reportam á mesma epocha, isto é, aos primeiros tempos da idade quaternaria, o que tambem se prova com a grande espessura do deposito que é de vinte e um metros bem medidos. O craneo achado em Gibraltar tem os caracteres anatomicos da mais antiga das raças até hoje conhecidas. Importa-nos pois saber qual foi esse typo humano, e quaes os elementos por onde os naturalistas fixaram os seus caracteres fundamentaes.