O frontal da Cueva de la Mujer, caverna proxima da Alhama de Granada, offerece, posto que menos salientes, os caracteres da parte analoga do craneo da pedreira de Forbes. O craneo a que pertencia aquelle frontal deveria ser extremamente dolichocephalo, e conter um cerebro pouco desenvolvido na parte correspondente ás faculdades intellectuaes. Com este osso encontraram-se outros do esqueleto, e entre elles um femur, a cujas altas proeminencias se apegariam musculos de grande força. Tambem, pela sua grande curvatura, differe da fórma que tem actualmente nas raças europeas, e até d’aquella que outr’ora teve nas raças antigas da mesma região[177].
Todos os observadores tem sido conformes em considerar analogas as maxillas fosseis da Peninsula e a de Moulin-Quignon. Áquellas que já mencionámos convirá accrescentar outra que appareceu em Gibraltar juntamente com instrumentos de pedra polida e de bronze, e que Falconer e Pruner-Bey acharam tambem similhante á celebre maxilla descoberta em Abbeville em 1863[178].
Auctorisará este facto a suppôr que os habitantes primitivos da Peninsula, excepto os de Forbes’-Quarry e porventura outros contemporaneos de que se não descobrissem ainda vestigios, pertenceriam á mesma raça ou antes á mesma familia de Moulin-Quignon? Não. Porque esta era brachycephala; ora a brachycephalia não se tem verificado senão nos craneos do Cabeço da Arruda. Os outros, entre elles o da Genista de Gibraltar, são dolichocephalos. Além d’aquelles que já mencionámos, ha os da Andaluzia, que Gongora affirma serem dolichocephalos, por ter examinado muitos, achados em varios sitios d’esta provincia[179]. Logo, se os craneos fosseis da Peninsula são pela maior parte dolichocephalos e não se podem classificar entre os do typo de Canstadt, ao que obstam não sómente os caracteres anatomicos, mas tambem o terem apparecido juntos com ossos de animaes domesticos, haveremos de referil-os á segunda raça dolichocephala de Quatrefages e Hamy, isto é ao typo de Cro-Magnon.
É cedo ainda para bem definir e classificar as raças prehistoricas, e muito mais para delinear com exacto rigor a sua distribuição geographica. Não resta duvida nenhuma de que o homem foi contemporaneo dos grandes mammaes desapparecidos; parece incontestavel que tambem o seriam alguns d’aquelles restos fosseis, dos quaes se fez resaltar o typo da primeira raça; mas do craneo de Canstadt que lhes deu o nome, ha quem affirme não ter essa antiguidade. Virchow cita um escripto de Hælder que torna o caso duvidoso[180]. Por outra parte, os diversos typos humanos, até hoje determinados, não se succederam uns aos outros em epocas egualmente successivas. Os typos mais antigos continuaram a apparecer por entre os menos antigos, e, por virtude da lei atavismo, ainda hoje se reproduzem alguns dos seus caracteres em certos individuos contemporaneos.
Da raça de Cro-Magnon conhecem-se melhor os caracteres anatomicos, por terem apparecido restos mais completos e mais numerosos; mas a sua distribuição geographica, fóra da França, não está perfeitamente demarcada. Quatrefages e Hamy affirmam haver-se encontrado o typo de Cro-Magnon em Hamoir, na Belgica; em Léry, no Eure; em Grenelle; em Lozére; nas landes de Bordeaux; em Sordes, na Gascunha; nas Vascongadas, nos craneos dos vasconços primitivos; em Zaraus; nos tumulos megalithicos da Africa, explorados pelo general Faidherbe; no paiz dos Kabylas de Djurjura, na Roknia; e finalmente nos craneos dos guanchos das Canarias[181]. Accrescentemos a estas regiões, pelos motivos ponderados, Portugal e Andaluzia, e as Asturias por se ter descoberto um craneo do mesmo typo na mina de cobre del Milagro. É obvia a importancia fundamental d’este roteiro para a ethnologia da Peninsula. Faça-se corresponder o centro da raça de Cro-Magnon ao sudoéste da França, e mais em particular ao valle de Vezére, a um territorio aproximadamente circumscripto pelos limites da antiga Aquitania, e admitta-se a existencia de vestigios d’esta raça nas regiões habitadas pelos vasconços, nas terras litoraes de Hespanha e Portugal, e finalmente, além do Estreito, na Africa do norte. Ficará assim resolvido, em parte, o problema das origens autochtonicas da peninsula Iberica. Quem ignora que os povos da Aquitania passavam por iberos, que estes occuparam uma grande parte da Peninsula, a que deram o proprio nome, se não o receberam d’ella ou de um dos seus rios; que os vasconços são considerados ainda hoje commumente como os ultimos restos d’essa gente notavel, que, mais pela prehistoria do que pela propria historia, se conhece; e finalmente que a proximidade geographica, as analogias ethnicas, as da fauna e da flora estão indicando a antiga existencia de povos irmãos nas costas meridionaes da Peninsula e nas septemtrionaes da Africa? A raça de Cro-Magnon, já de per si resultante do cruzamento de uma raça mais com outras menos imperfeitas, sería pois o fundo geral, onde, pelo decurso dos tempos, viriam misturar-se e dissolver-se os elementos ethnicos de outros povos, emigrantes de varios logares da superficie da terra, e mui differentes entre si pelos caracteres physicos e moraes.
Será porém a presupposta distribuição geographica da raça de Cro-Magnon, na parte respectiva á Peninsula, um facto real e positivo ou apenas uma hypothese que algumas circumstancias fortuitas fazem parecer provavel? Em que argumentos se estriba tal opinião?
Já vimos que os logares, onde os auctores da Crania ethnica suppõem ter existido a raça de Cro-Magnon, concordam exactamente com a hypothese, quando se applica fóra da Peninsula, e ainda aqui na parte correspondente ás Vascongadas. E, se não referiram ao typo de Cro-Magnon outros craneos fosseis achados em Hespanha e Portugal, os da Alhama e de Cesareda, disseram todavia bastante para se conhecer que tambem não os poderiam classificar entre os de Néanderthal, d’Engis ou de Forbes. Pela nossa parte entendemos que, á falta de mais minuciosa investigação, aquelles craneos pelas suas fórmas menos imperfeitas, por serem dolichocephalos e finalmente por terem apparecido juntos com ossos de animaes domesticos, só á raça de Cro-Magnon se hão de reportar. Os caracteres notaveis do femur de Alhama parece confirmarem esta mesma conjunctura; e tambem a analogia dos vestigios da industria humana achados n’esta caverna com aquelles que se encontraram em França, n’outra caverna de Dijon[182]. Assim pois admittiremos, como extremamente provavel, que a raça de Cro-Magnon habitaria nos tempos prehistoricos uma parte da França, a peninsula Iberica e a Africa septemtrional. E para que a nossa opinião não corra desacompanhada de toda a auctoridade que lhe faça boa sombra, lembraremos em fim que anthropologos taes como Busk, Broca e Falconer, referiram ao typo de Cro-Magnon o craneo da Genista em Gibraltar, e o da mina de cobre del Milagro nas Asturias.
Mas, por outra parte, sabe-se que nos mais antigos dos tempos de que ha memoria, a raça berébere povoava já uma zona extensissima da Africa septemtrional desde as praias do Mediterraneo até ao oceano Atlantico, a Libya, a Numidia, a Mauritania e outros paizes, que os egypcios, os gregos e romanos variamente denominaram. Ora, se os kabylas representam ainda hoje e os guanchos representavam ha poucos seculos a raça de Cro-Magnon, se os primeiros são beréberes e os segundos o foram tambem, natural parecerá perguntar se os beréberes actuaes não representarão hoje em dia aquella velha raça de Cro-Magnon? Se, nos tempos prehistoricos não occupariam, portanto, uma parte da França, a peninsula Iberica e a Africa septemtrional, onde, por fim, mais livres de cruzamentos ou da acção expulsora de outros povos, se perpetuariam até hoje?
Broca e Hamy em França inclinam-se para esta hypothese que ultimamente foi tratada em Hespanha com grande desenvolvimento por D. Francisco Tubino[183]. Topinard não a demonstra, para o que será ainda cedo, mas affirma que fortes presumpções a tornam muito provavel[184].
Broca examinou innumeros craneos vasconços e julgou-os analogos aos dos beréberes[185]. Pruner-Bey tambem reconheceu nos maxillares, encontrados nas cavernas da Cesareda e no Cabeço da Arruda os caracteres do typo do berébere do continente africano[186]. Cita-se, além d’isto, em favor da hypothese a grande similhança da fauna e da flora, em geral, e mais em particular dos typos humanos, nos visinhos litoraes europeu e africano, das serras da Ronda e da cordilheira do Riff, por exemplo. Cita-se mais a união possivel em epocas remotas entre a Africa e a Europa em sitios correspondentes ao Estreito. Finalmente, admittindo este facto geologico, suppõe Quatrefages a raça de Cro-Magnon oriunda da Africa d’onde emigraria para a Europa com a hyena, o leão, o hippopotamo e outros animaes africanos[187].