Em França, onde, se têem descoberto e estudado muitos craneos e outros ossos humanos fosseis, conhecem-se já os caracteres anatomicos da raça de Cro-Magnon e a sua distribuição geographica. Sabe-se, por exemplo, com certeza que era ao sudoeste a parte por ella mais povoada. Na Peninsula faltam-nos os estudos necessarios para affirmar com certeza qualquer opinião. Em vista das razões ponderadas, é provavel que á raça de Canstadt, representada pelo craneo de Forbes, e talvez pelos instrumentos de silex de San Isidro, se seguisse a de Cro-Magnon, á qual se reportam os outros craneos da Genista de Gibraltar, e os de Alhama, da mina del Milagro e de Cesareda. Mas, depois do muito que n’estes ultimos annos tem progredido a paleontologia humana, e particularmente depois da publicação da Crania ethnica, obra abundante de subsidios para os estudos comparativos, importa rever todos esses vestigios peninsulares, medil-os com exactidão, classifical-os e comparal-os entre si e com os typos conhecidos. Importa mais buscar outros vestigios, porque os de quatro ou cinco estações em toda a extensão da Peninsula não bastam para sanccionar qualquer conclusão positiva. Convirá finalmente passar além do Estreito, e determinar as relações de similhança ou de differença, que por ventura existam entre a paleontologia humana da Europa meridional e a das regiões septemtrionaes do continente africano.
A archeologia e a historia revelam-nos outros factos, que, posto que não cheguem a demonstrar cabalmente o predominio da raça berébere na Peninsula, dão todavia a esta hypothese mais alguns graus de probabilidade. Ha mais de tres mil annos os egypcios estavam em relações com os libycos, a quem chamavam lebu, d’onde se derivaria talvez a fórma grega libues. Os tumulos reaes das dynastias XVIII, XIX e XX, em Biban-el-Moluk, estão adornados de notaveis pinturas, entre as quaes se vêem representadas quatro raças que deveriam ser partes constituintes do vasto imperio dos pharaós. Em primeiro logar os rot ou egypcios, pintados de vermelho e parecidos com os paizanos actuaes das margens do Nilo; em segundo logar os namu de côr amarella e de nariz aquilino, correspondentes aos povos asiaticos que viviam ao oriente do Egypto; depois os nashu ou negros prognatas de cabello crespo; e finalmente os tamahou brancos, de olhos azues e cabellos louros[188].
Não falta quem supponha significar tamahou em egypcio homem do norte; e serem, portanto, os homens brancos e louros, em quem imperavam os pharaós, procedentes da Europa septemtrional. Mas o general Faidherbe impugna tal etymologia, e assevera que a lingua berébere ainda hoje se chama tamahoug no Sahara, onde mais pura se tem conservado[189].
Por outra parte, consta de uma grande inscripção de setenta e sete columnas, conservada em Karnak e interpretada pelo visconde de Rougé, que os tamahu capitaneados por Mormuiu, foram derrotados pelos pharaós Ramsés e Merenptah. Em fim, na Argelia appareceram monumentos de Tutmés III, em cujo tempo, consequentemente, se dilataria o imperio egypcio até áquella região extrema da Africa septemtrional[190].
Para combinar, harmonisar e explicar todos esses factos é mister referir os tamahu á Africa do norte, e por tanto suppôr que seriam beréberes, os quaes ora fariam parte do vasto imperio egypcio, ora tentariam libertar-se do jugo pouco toleravel de um povo distante e de raça differente. É verdade que o typo do berébere de hoje não parece muito conforme ao do tamahu de ha tres mil e tantos annos. A maior parte dos beréberes tem olhos, pelle e cabello escuros. Mas este typo contemporaneo póde não ser já o mesmo do tempo dos pharaós, por se ter alterado, por effeito de influencias estranhas, que não deixariam de transformal-o no espaço de tantos seculos. Muitos dos habitantes das montanhas de Marrocos e da Argelia, e os touaregs do Sahara, logares aonde era mais difficil chegar a influencia dos cruzamentos, são de alta estatura, claros, de olhos azues e cabello louro. Assim o attesta o general Faidherbe, que estudou as regiões da Africa septemtrional, e o confirma F. M. Tubino, accrescentando haver tambem observado com frequencia o mesmo typo nas serranias da Ronda áquem do Estreito. Encontrar-se-hão, porém, por todos os logares, aonde menos poderiam chegar influencias estranhas, beréberes brancos e de olhos azues, com quem se pareçam ainda hoje os retratos pintados ha trinta e mais seculos nos tumulos reaes de Biban-el-Moluk?
Mas a influencia da civilisação egypcia dilatava-se ainda para áquem dos limites do continente africano, e chegava muito perto da Peninsula, senão a algumas das proprias gentes que a povoavam. Quinze seculos antes da era christã já os sardos possuiam marinha militar, e duzentos annos antes, no seculo XVII, já o Egypto nomeava funccionarios especiaes para tractarem, em nome dos pharaós, as questões internacionaes com os povos pelasgicos do Mediterraneo, taes como os tuscos, dardanios e gregos[191]. A inscripção de Karnak menciona entre os homens do mar, alliados com os libycos, os sárdainá ou sardos, os turs’a ou etruscos e os mas’uas ou amazirghas[192]. É provavel que a todos tivesse applicação o nome generico de tamahou. Os rebu ou lebu (libycos) e os ma’suas que habitavam tambem a Africa septemtrional, apparecem adornados com o mesmo singular toucado; e vem a ser uma larga trança enroscada que passa por deante da orelha e cahe sobre a espadua, recurvando-se á maneira do chifre inferior de alguns carneiros. O mais notavel é que um dos pharaós, Ramsés II, se adorna com toucado similhante. Por este facto, e porque se vê gravado nos braços e pernas dos tamahou o symbolo conhecido da deusa Neith, se provam as relações intimas que em epocas remotas ligavam estes povos aos habitantes do Egypto.
Os povos confederados, segundo a citada inscripção, invadiram o Egypto e chegaram até Memphis. Foram porém derrotados pelo pharaó ou pelos seus generaes. O principe Mormuiu perdeu o arco, a aljava e as sandalias juntamente com as suas joias de ouro e prata e utensilios de bronze. Os povos do mar deixaram tambem objectos de ouro e prata, espadas, facas, couraças e cnemides. Pela importancia e qualidade dos despojos se avaliará o subido grau de civilisação a que tinham chegado, ha mais de tres mil annos, todas estas gentes convisinhas do Mediterraneo[193].
Os povos da Peninsula, pelo menos os das regiões meridionaes e orientaes, acompanharam de certo os seus visinhos das ilhas do Mediterraneo e do norte da Africa nos estadios da civilisação que successivamente percorreram. Por aquellas mesmas regiões se encontram vestigios das construcções cyclopeas dos povos pelasgicos. Nas ilhas Baleares abundam os talayots analogos ás nuraghas da Sardenha. A par com estas construcções de fórma pyramidal vêem-se outras á maneira de barcos com as quilhas voltadas para cima, e que não são senão as mapalia ou magalia, que os getulos ou numidas do tempo de Sallustio construiam no seu paiz: «ædificia oblonga incurvis lateribus tecta quasi navium carinœ sunt»[194]. Os sardos e os iberos usavam a longa tunica negra e roçagante á moda dos médas, que, por este costume, se differençavam dos outros povos nomadas, celtas, scythas e germanos, cujos vestidos se lhes cingiam aos corpos e apenas lhes cobriam as pernas. Finalmente o cetra ou escudo pequeno redondo era usado pelos libycos, iberos e bretões[195].
De quanto deixamos ponderado parece-nos concluir-se com grande probabilidade: 1.º Que na epoca da pedra polida a Peninsula sería habitada pela raça de Cro-Magnon, pelo mesmo tempo existente na parte meridional da França e na septemtrional da Africa; 2.º Que esta raça é ainda hoje representada pelos beréberes; 3.º Que ha tres mil e mais annos os povos libycos e pelasgicos estavam já tão civilisados que podiam invadir o Egypto e medir-se com os exercitos dos pharaós; 4.º Que os habitantes da peninsula Iberica, pelo menos os de certas regiões, deveriam estar tambem similhantemente civilisados, e ter portanto ultrapassado a idade da pedra.