Bastará, portanto, a consideração da cintura megalithica da Peninsula para provar que a civilisação dolmenica deve ter vindo pelo mar. Mas a cintura não é completa. Interrompe-se desde o cabo de Gata ate ao cabo de Creus, isto é nas regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Qual sería pois o obstaculo á propagação dos dolmens por tamanha extensão de terra, que, por ser banhada pelo mar, estava em condições tão favoraveis como o restante litoral para receber a nova civilisação? Foi uma civilisação anterior, que trouxeram pelo Mediterraneo povos emigrados pelo oeste da Asia, em quanto a outra, a dos dolmens, deve ter correspondido áquelles que emigraram pelo noroeste e vieram á Peninsula pelo Atlantico.
D’esta sorte a civilisação dos dolmens caminharia do norte para o sul, hypothese, contra a qual tem objectado a maior perfeição e variedade dos objectos encontrados nos dolmens do norte em relação aos extrahidos dos dolmens do sul. Mas este facto, apesar de verdadeiro, não constitue prova evidente. Por quanto, havendo a idade da pedra, e em geral os tempos prehistoricos, durado por mais tempo nos paizes septemtrionaes que nos meridionaes, é claro que o costume de construir os dolmens deveria tambem conservar-se até mais tarde. Por isso, tendo mais tempo de progredir, a industria humana deixaria vestigios mais perfeitos, correspondentes a uma epoca posterior da sua evolução.
Não faltam para contrapor aos dolmens outros vestigios materiaes das antigas civilisações, vindas pelo Mediterraneo. São os monumentos cyclopeos, cuja origem se encontra na Asia Menor, na Bithynia, segundo a opinião de Mimaut[218]. Depois continuam pela Arcadia, Epiro, Grecia, Italia, Sicilia, Sardenha e ilhas Baleares. Na Peninsula, diz Rougemont, seguem-se por Tarragona, Sagunto e mais para o interior até Toledo[219]. Mas o que melhor nos convence da incompatibilidade das duas civilisações vem a ser a lei da antinomia dos seus vestigios respectivos. Na Asia, da mesma sorte que na Europa, onde ha dolmens faltam as construcções cyclopeas, onde restam vestigios das segundas faltam os primeiros.
A esta, como a toda e qualquer regra geral, se descobrirão de certo algumas excepções. Nas ilhas Baleares, por exemplo, vêem-se as mapalias ou navetas e os talayots, monumentos cyclopeos, e a par com elles os dolmens e os menhires. Na Andaluzia acham-se tambem dolmens e muralhas cyclopeas, como as do Castello de Ibros em Jaen. Mas estes dolmens, bem como os das Baleares, parecem menos antigos que os de Portugal. Na Cueva de la pastora ha uma galeria subterranea, cuja camara circular é coberta á roda com pedras, dispostas á maneira d’aquellas que formam a abobada de escalão (encorbellée), e por cima e no centro acaba de cobril-a uma lage dolmenica[220]. Ora, se esta singular construcção é, com effeito, uma abobada incompleta, mostraria a fusão dos dois estylos, porque a abobada, inteiramente estranha á architectura dolmenica, encontra-se muitas vezes pelos monumentos cyclopeos. Na mesma região se operou em tempos muito posteriores uma similhante fusão entre o estylo christão ogival e o estylo mahometano egualmente incompativeis.
Da lei da antinomia dos dolmens com as construcções cyclopeas claramente se deprehende o terem sido contemporaneos, porque duas civilisações sómente poderiam repellir-se na mesma epoca e não em epocas differentes. Prova-se porém, até certo ponto, mais directamente esse facto, porque em excavações, feitas em nuraghas da Sardenha e em talayots das Baleares têem apparecido armas de silex e de bronze[221]. Assim, ao tempo em que os introductores do estylo dolmenico abicavam ás praias occidentaes da Peninsula, povos de outra raça, e ligados a outro centro de civilisação, incompativel com o costume ou com o rito dos dolmens, habitavam as regiões orientaes, banhadas pelo Mediterraneo.
A antinomia do occidente com o oriente, ou das civilisações vindas pelo Atlantico á Peninsula, com aquellas que entraram pelo Mediterraneo, ou finalmente dos povos das regiões septemtrionaes da Europa com os do oeste da Asia e do norte da Africa, manifesta-se-nos, pela primeira vez, na epoca da pedra polida, entre os constructores dos dolmens e os constructores dos talayots ou dos muros cyclopeos. Depois, na aurora dos tempos historicos, entre os celtas e os iberos. Mais tarde, outra vez, entre os barbaros, procedentes das regiões septemtrionaes da Europa e os arabes e mouros, vindos da Asia e da Africa. Hoje, finalmente, como ha oito seculos, a resistencia invencivel á união de Portugal e Castella é ainda um effeito d’esta grande e prolongada antinomia do occidente com o oriente. A Galiza é uma excepção, porque, ficando ao occidente, se uniu á Hespanha e não a Portugal. Mas todos sabem que outr’ora o portuguez e o gallego fallaram a mesma lingua, e que ainda hoje, pelo caracter, pelos costumes, pelas propensões populares, Portugal e a Galiza se assimilham mais entre si do que com quaesquer outros povos da peninsula Iberica.
Outros vestigios de uma civilisação primitiva, talvez mais ou menos relacionada com os monumentos cyclopeos, estão nas antigas minas de cobre del Milagro, nas Asturias; de Cerro-Muriano, em Cordova; de Odiel e Riotinto, na Huelva; e finalmente de Ruy Gomes, no Alemtejo[222]. Os machados de pedra com que trabalhavam n’estas explorações denotam uma industria prehistorica, anterior ao uso de ferro e até provavelmente ao do bronze. Ha certa variedade nas fórmas dos taes martellos. Uns assimilham-se áquelles que se tem encontrado em varias estações prehistoricas da Europa; em cavernas da França e lagos da Suissa: outros, como os de Cerro-Muriano, parece terem antes mais analogia com instrumentos congeneres, achados em minas de cobre do Lago Superior, na America do Norte[223]. Aqui apparecem tambem vestigios notaveis de construcções cyclopeas nas margens dos rios Colorado, Mancos, San Juan e La Plata do Novo-Mexico. Tornam-se sobre tudo notaveis as grandes e altas torres redondas, feitas de duas ou tres muralhas concentricas, as habitações excavadas nas rochas, as quaes dizem similhantes a outras da Asia Menor, e finalmente as inscripções entre cujos hieroglyphos se distingue a figura do homem e de varios animaes. Algumas d’estas inscripções foram gravadas na pedra, outras pintadas com argillas vermelha e branca[224]. Ora todas ellas, pelo genero do desenho, e algumas por serem coloridas e pelas substancias colorantes empregadas, se assimilham extremamente a outras da Andaluzia, encontradas tambem em nichos ou casas abertas nas rochas[225]. Por outra parte os philologos aproximam os idiomas dos vasconços aos dos georgianos e aos de certos povos da America, a ponto de os reunirem todos no mesmo grupo[226].
Estes factos estão indicando a existencia de uma antiga civilisação, irradiante da Asia para a Europa e para a America, e caracterisada pela exploração e fabríco do cobre. Os seus vestigios acham-se em regiões extensas da Asia, na Russia scythica, no Caucaso, na Hungria e Transylvania, na Iberia e na America. Tão mal se conhece ainda a archeologia prehistorica d’estes povos, representantes da epoca do cobre, que a maior parte dos archeologos tem chegado a negar a sua existencia, admittindo sómente a da epoca do bronze. Entretanto os estudos, apenas começados, das antiguidades tchoudes na Asia e na Europa, os poucos conhecimentos adquiridos ácerca das minas de cobre prehistoricas fazem já evidente a irradiação de uma antiga civilisação do mesmo centro commum para varias partes do mundo.
A qual das raças humanas se ha de referir este grande movimento prehistorico da exploração e fabríco do cobre? Os tchoudes, a quem se attribuem as minas do noroeste da Asia, da Russia scythica e da Hungria e Transylvania, são de raça turania. Os mais antigos dos povos da America assimilham-se tambem mais aos turanios que aos iranios. Em fim os proprios vasconços parece não serem inteiramente extranhos á raça mongolica. Aristoteles refere que os iberos (de Hespanha), povo bellicoso, erguiam á roda de cada tumulo tantos obeliscos, quantos inimigos o defuncto matára em vida[227]. Os annaes chinezes de Tchéon (567 a 579 depois de Jesus Christo) repetem verbum ad verbum as palavras de Aristoteles, mas a proposito de um povo tartaro. Dizem dos thoukiones ou turcos orientaes, restos dos hiongnon (hunos), que por aquelle mesmo tempo figuraram entre os invasores da Europa meridional, vindos do norte, «que elles põem uma pedra sobre a sepultura, e levantam á roda tantas pedras, quantos homens o defuncto matára em vida».
Á classificação dos vasconços ou dos antigos iberos entre os povos da raça mongolica oppõem-se, bem o sabemos, razões ponderosas, taes como a presupposta origem dos segundos e os caracteres ethnicos dos primeiros. Porém nenhuma d’estas razões constitue uma difficuldade insoluvel. O caracter ethnico dos vasconços não póde ter-se conservado puro durante milhares de annos no meio de povos de raças differentes. É por tanto admissivel que os mais antigos dos exploradores do cobre fallassem algum idioma agglutinativo, hoje perdido, no tempo em que foram construidas as nuraghas e os talayots, e anteriormente á entrada dos iberos na Peninsula. Ainda assim não ha impossibilidade em attribuir a estes ultimos as mais antigas das minas, suppondo que n’elles predominariam os caracteres ethnicos da raça caucasica, posto que, pela linguagem e pela civilisação que representavam, se relacionassem antes com a raça mongolica. As regiões que separam o mar Caspio do mar Negro eram exactamente aquellas, onde vinham encontrar-se as raças caucasica e mongolica, para da Asia emigrar para outras partes do mundo. Tudo são trevas em tão remota antiguidade. Ainda hoje uns sustentam que o euskara fôra a linguagem dos iberos; outros affirmam que as inscripções ibericas, achadas em varias regiões da Peninsula, são inconciliaveis com a lingua dos vasconços. A philologia está portanto tão atrazada, que não resolveu ainda este ponto fundamental. A anthropologia diz-nos apenas haverem-se encontrado dois craneos, um dolichocephalo e outro brachycephalo, cada um em sua mina. A archeologia não sabe classificar os vestigios dos povos primitivos da Peninsula, e nem ao menos, até hoje, demonstrára cabalmente a differença capital entre os dolmens e os monumentos cyclopeos, e as conclusões importantissimas que resaltam da sua antinomia e distribuição geographica.