Quanto ao centro e extensão de uma antiga civilisação mongolica, anterior á historia, recentes descobrimentos confirmam a asserção de Justino, o historiador. Segundo esta asserção, que exprime antigas tradições asiaticas, a Asia Anterior sería inteiramente senhoreada durante quinze seculos pelos scythas, povo mais antigo que os proprios egypcios. Ora os estudos assyriologicos demonstram este mesmo desenvolvimento dos povos turanios na Asia Anterior ainda antes dos aryos e dos semitas[228].
A incerteza do caracter ethnico, verificada nos iberos e n’outros dos povos antigos da Peninsula e da Europa, é tambem commum ainda hoje a uma raça muito notavel, cujas tribus, essencialmente nomadas, vaguêam pela face da terra praticando a arte de fundir ou forjar os metaes. Chamam-lhes tzigeuners ou ziguener na Allemanha, tzigani na Hungria, zingaros na Italia, bohemios na França, gitanos em Hespanha, e finalmente ciganos em Portugal. No Alemtejo encontram-se muitos individuos d’esta raça. Habitam em Evora as ruas de certo bairro, e conservam os seus costumes proprios, entre os quaes se notam sobre tudo as ceremonias e festejos dos casamentos. Vaguêam, como nomadas, pelos campos e de povoação em povoação. Vivem da rapina e de comprar, vender ou trocar cavalgaduras, distinguindo-se nas feiras pela astucia com que enganam os compradores. Ha poucos annos vagueava em Portugal uma tribu de ciganos, que tinha por industria o concerto ou estanhadura de vasos e utensilios de cobre ou de bronze. Estacionavam pelos arrabaldes das cidades, onde abarracavam, como tropas em campanha, demorando-se com as suas forjas, em quanto os moradores da povoação lhes davam trabalho. Durante a idade media estas visitas dos ciganos fundidores ou caldeireiros eram mais frequentes, e então, como hoje, praticavam sempre da mesma fórma que Herodoto já notara. Mas é ainda mais extraordinario que as fundições até hoje descobertas e pertencentes á epoca do bronze auctorisem a suppôr que já n’esses tempos remotos a arte de fundir o bronze sería praticada por estrangeiros que estabeleciam as suas officinas em raso campo, fóra das povoações. Isto mesmo parece deduzir-se dos thesouros achados pelas montanhas, onde teriam sido escondidos pelos fundidores vagabundos, que por qualquer causa não teriam podido voltar em busca d’esses ricos depositos.
Na opinião de alguns os ciganos constituem um povo moderno das margens do Indus ou Sind, cujas primeiras emigrações datariam do tempo de Tamerlan, que pol-os perseguir os obrigaria a expatriarem-se. Outros porém attribuem-lhes muito maior antiguidade, e suppõem que os actuaes ciganos descendem dos syginnos, que Herodoto diz terem sido os primeiros habitantes da Hespanha, e que teriam vindo do Danubio: Strabão é de parecer que os syginnos procederiam antes do Caucaso. Tambem não falta quem tenha achado relações de parentesco entre os syginnos e os sicanos, primeiros habitantes da Sicilia. Haverá apenas uma similhança casual entre os nomes de syginnos, tzigeuners, tziganos, sicanos e ciganos, ou serão com effeito fórmas differentes do nome de uma antiga raça, que, vinda da Asia, diffundiria pela Europa a industria do fabríco do bronze nos tempos prehistoricos?
Ainda outra circumstancia notavel. Diz Herodoto que os syginnos trajavam largas vestes á maneira dos medas, d’onde conclue que os primeiros seriam effectivamente d’estes ultimos povos, que em epocas remotas viriam á Hespanha[229]. Strabão affirma que os habitantes das Baleares eram optimos fundidores e os primeiros dos homens que, segundo se dizia, usaram largas tunicas tunicas late pretextas[230].
NOTAS DE RODAPÉ:
[196] A dolichocephalia dos vasconços hespanhoes e a brachycephalia dos vasconços francezes constam das tabellas publicadas por Topinard e por Quatrefages nos livros L’anthropologie e L’espèce humaine.
[197] Esta opinião tem sido em todos os tempos e pela maior parte dos auctores geralmente seguida. Entretanto o atrazo da philologia e da archeologia peninsulares não permitte ainda formular qualquer demonstração rigorosa. O que por ora se sabe dos costumes e linguagens dos povos que habitavam a Peninsula é tão incerto, que não ha que estranhar vermos na actualidade uns, como Luchaire, sustentarem que o euskara sería a lingua dos antigos iberos que povoavam a Peninsula e a Aquitania, e outros, como Sayce, affirmarem que as inscripções celtibericas não se parecem nada com aquelle mesmo idioma dos vasconços. Vej. La Academia, tom. I, pag. 370 e 238.
[198] Tubino, Los Aborigenes ibericos.
[199] Strabão affirma que os iberos usavam não sómente de muitos dialectos, mas tambem de alphabetos diversos.
Anteriormente aos povos da Peninsula dominados pelos romanos, seis ou cinco seculos antes de Jesus Christo, os tartessos habitavam ao meio-dia, desde o Guadalquivir até ao Segura, ao norte de Carthagena. Os cunétos, visinhos dos tartessos, habitavam ao occidente as margens do Guadiana, e dilatavam-se pelo litoral até ao cabo de S. Vicente.