«A arma verdadeiramente significativa, que jámais se empregou depois do fim da edade da pedra, ou quando muito depois do periodo de transição da pedra para os metaes, é o machado polido. Marca um periodo, pelo menos no occidente, porque na Chaldêa tem-se encontrado muitas vezes nos tumulos do antigo Imperio e nos entulhos dos edificios d’Abou-Schahrein. Por isso ao machado de pedra mais tarde se ligaram tantas superstições; a sua origem humana estava inteiramente esquecida.
«A alta antiguidade, á qual se reportavam os instrumentos de pedra, foi causa de que entre muitos povos lhes dessem caracter religioso, e se conservasse o uso d’elles por muitas vezes no culto. Entre os egypcios era com um instrumento de pedra que o paraschisto abria o ventre da mumia, antes de submettel-a ás operações do embalsamento. Entre os judeus a circumcisão praticava-se com uma faca de silex. Na Asia-Menor os gallos ou sacerdotes de Cybêle retalhavam as proprias carnes com uma pedra cortante ou com um caco de louça. Na Chaldêa a intenção religiosa e ritual que fazia depositar facas e pontas de pedra nos tumulos do antigo Imperio prova-se pelos modelos d’estes instrumentos de pedra ou de barro cozido, moldados pelos originaes, que algumas vezes os substituem. Entre os romanos um machado de pedra (scena pontificalis) servia para o culto de Jupiter Latialis, e tambem para os ritos dos Feciaes. Na China, onde se conhecem os metaes ha tantos seculos, as armas de pedra, e sobre tudo as facas de silex, têem sido religiosamente conservadas. Ainda hoje em dia entre os pallikares da Albania, eu proprio o observei, com um calhau cortante e não com faca de metal destacam as carnes da omoplata do carneiro, em cujas fibras acreditam ler os segredos do futuro.
«A par com a conservação ritual do uso de certos instrumentos de pedra nas ceremonias religiosas importa mencionar, terminando, as superstições que se associaram ás pontas de frechas de pedra e aos machados polidos que se encontravam no solo, depois de se ter perdido a sua origem. Na maior parte dos povos do mundo antigo, nos seculos pouco anteriores á era christã, recolhiam-os como objectos preciosos, e attribuiam-lhes mil propriedades maravilhosas e magicas, por accreditarem que do ceu cahiam com o raio. Conforme o testimunho de Plinio, distinguiam-se as ceraunias, que, segundo a sua propria descripção vem a ser as pontas de frechas, e os betuli, que são os machados. Ha collares de ouro etruscos dos quaes pendem, á maneira de amuletos, pontas de frechas de silex. Ao caracter talismanico que suppozeram n’esta classe de objectos se hão de attribuir as inscripções gnosticas e cabalisticas do seculo III ou IV da nossa era, gravadas n’um pequeno machado polido descoberto no Peloponeso, e actualmente no Museu Britannico. Seríam feitas de certo na epoca em que o machado serviria de amuleto protectivo a quem o trouxesse comsigo. As crenças supersticiosas ácerca das suppostas pedras de raio permaneceram vigorosas ainda entre os sabios, até ao seculo XVI; e sómente no seculo XVIII chegaram a desarraigar-se inteiramente na Europa illustrada. Em muitos paizes, como na Italia, Alsacia e Grecia, subsistem ainda entre os habitantes dos campos.»
Lenormant, Les premières civilisations, tom. I, pag. 169 a 172.
2.ª
A CITANIA DE BRITEIROS
No monte de S. Romão de Briteiros, entre Braga e Guimarães, em pequena distancia das Taipas, jazem umas ruinas, mencionadas desde o seculo XVI pelos nossos antiquarios, e recentemente exploradas pelo sr. Francisco Martins Sarmento. Discutiram largamente, sem chegar a conclusões decisivas, Brito, Estaço e Argote que povoação teria sido esta em tempo dos romanos. Mas o atrazo da archeologia não lhes deixou entrevêr que tal questão não sería de certo a mais importante d’aquellas que o exame das ruinas poderia suscitar. Os problemas de maior interesse apparecem agora á vista dos restos que o sr. Martins Sarmento, com zelo e dedicação de que até hoje não houvera ainda exemplo em toda a Peninsula, desentranhou da espessa camada de terra que os occultava.
A existencia da povoação na epoca romana demonstra-se com certeza pelas moedas e inscripções ali encontradas. Mas, a par com esses vestigios, têem apparecido outros, representantes de uma civilisação anterior que na Peninsula, á falta de estudos e de explorações, não se destaca ainda claramente das trevas prehistoricas. A promiscuidade dos caracteres romanos com os de outros alphabetos ou com lavores esculpidos de outro estylo, tudo conjuntamente nas mesmas pedras, provando mais com egual evidencia que todos esses vestigios são contemporaneos, não se pode explicar senão pela insufficiencia da civilisação romana para destruir e substituir por outros os velhos costumes transmittidos de geração a geração entre os habitantes d’esta parte da Peninsula.
Depois das grandes explorações ultimamente emprehendidas, vêem-se os restos das quatro muralhas que defendiam a povoação pela parte do sul e poente; percorrem-se as ruas e praças, algumas d’ellas lageadas com losangos de granito perfeitamente apparelhados; entra-se nas casas, em cujas paredes, conservadas de pé até certa altura, muito bem se observam todas as particularidades da construcção.
A mais forte das primeiras impressões é a que produz no espirito a vista das muralhas e das casas. Quem estiver habituado a observar a regularidade do apparelho romano, a superficie liza dos grandes silhares, a nitidez das linhas de união, a firmeza resultante do endurecimento da argamassa pelos soes de muitos seculos, necessariamente estranhará a falta de todo o apparelho nas muralhas e o limitar-se unicamente á face externa nas paredes das casas mais bem construidas, e da mesma sorte o não terem sido ligadas as pedras com argamassa. Esta circumstancia e tambem o revestimento interior das paredes das casas com pedras pequenas, faz lembrar as construcções denominadas cyclopeas, que se encontram na Italia, Malta, Grecia, etc.
Porém o não se descobrirem vestigios correlativos da epoca remota de taes construcções induz a crêr que a falta da cal sería a causa de se conservar no monte de S. Romão o costume de construir com pedra insossa, como ainda hoje acontece nas povoações ruraes circumvisinhas. Não se explica da mesma sorte por circumstancias locaes uma singular particularidade observada n’algumas casas, e vem a ser o formarem as pedras maiores das paredes, series espiraes, que principiam junto do solo e se prolongam com regularidade geometrica até á parte superior.