Esta disposição das pedras de certas paredes e as espiraes que se vêem gravadas n’algumas das rochas do monte e n’algumas das pedras desenterradas relacionam estes vestigios com outros prehistoricos da epoca do bronze, e mais em particular os signaes das rochas com outros similhantes que se conhecem na Irlanda. A gruta artificial, que denominam Penedo da Moura, e alguns consideravam como um dolmen, com sulcos artificialmente gravados na face inferior da pedra que lhe serve de tecto, liga-se ainda naturalmente com esses vestigios. Alguns dos fragmentos de louça parece terem uma ornamentação prehistorica. Finalmente a esculptura das pedras assimilha-se mais aos desenhos prehistoricos do que aos dos estylos conhecidos, e menos ainda ao romano que aos outros. Mas, como estes ultimos ornatos existem em pedras com inscripções romanas, em vez de reportal-os á epoca da pedra polida ou do bronze, deveremos antes suppôr que todos esses costumes se conservaram ainda n’aquella parte da Peninsula durante a dominação romana, pela repugnancia que os dominados offereceriam a acceitar a civilisação dos dominadores.
Já no tempo de João de Barros chamavam ruinas da Citania ás do monte de S. Romão de Briteiros. Esforçaram-se alguns, porém inutilmente, para fazer esta palavra equivalente da Cinnania ou Cinninia, mencionada por Valerio Maximo. Parece que Citania sería antes um appellativo, pois dizem haver na provincia de Entre Douro e Minho, outras ruinas de povoações antigas assim tambem denominadas. Da mesma sorte a palavra Cythiau, tendo talvez a mesma etymologia, se applica no paiz de Galles ás velhas ruinas gaelicas, segundo escreve Amadeu Thierry na sua Historia dos Gaulezes.
Esta analogia, só por si, poderia e deveria passar desapercebida, se outras não fizessem maior força. Os signaes com a fórma de espiral, gravados nas rochas e em pedras apparelhadas, encontram-se na Citania, bem como na Irlanda e n’outras partes da Grã Bretanha. Em fim os povos que habitavam o territorio bracarense no tempo das invasões dos romanos (gallaici bracari) eram de origem celtica e por tanto ethnicamente relacionados com os povos d’aquelle paiz procedentes do mesmo tronco. No capitulo X d’este livro demonstrámos que as regiões occidentaes da Peninsula, assim como as partes da Europa, banhadas pelo Atlantico, estariam naturalmente sujeitas ás emigrações dos povos que viessem da Asia pelo noroeste, em quanto as regiões orientaes da Hespanha, litoraes do mediterraneo, receberiam pelo contrario gentes diversas, vindas do oeste da Asia ou da Africa septemtrional.
Os caracteres dos vestigios encontrados na Citania, que evidentemente não são romanos, serão portanto celticos. A fórma das casas e o deverem ter sido cobertas de colmo, por se não encontrarem vestigios de telhados, concorda com os termos em que os auctores antigos descrevem as casas dos gaulezes. Além das moedas romanas achou-se outra celtica, infelizmente perdida. O estylo da ornamentação da Pedra formosa e de outro fragmento é caracteristico. No desenho dos ornatos predominam os circulos concentricos, as espiraes e as cordas torcidas. Na Galiza achou-se um vaso de bronze cuja ornamentação essencialmente differente do estylo dos romanos ou de quaesquer outros dos povos que depois dominaram a Peninsula, tem os mesmos elementos mencionados, e, por isso, toda a similhança com o da Citania. As casas descobertas nos castros da mesma provincia são tambem analogas ás da Citania. Finalmente nas ruinas de algumas d’aquellas que se têem desenterrado nos castros verificou-se o serem formadas por paredes duplas, separadas por um pequeno intervallo. Em Sabrôso, proximo da Citania, achou o sr. Martins Sarmento ha poucos dias vestigios similhantes de casas com paredes duplas.
Começa hoje a ser estudada a civilisação gallaica. Os castros da Galiza, explorados pelo sr. Villa-amil, deram já alguns subsidios. Mas os mais importantes, pela qualidade, numero e variedade, são incontestavelmente as ruinas da Citania de Briteiros.
3.ª
ÁCERCA DA PALAVRA ANTA
Em Portugal chamam antas aos dolmens. Para a etymologia da palavra anta convirá notar que, segundo affirma Mendonça e Pina, os godos chamaram antas aos seus heroes. Os povos de Saxe attribuem a construcção dos dolmens, aos gigantes; ora entre esses povos, bem como no antigo anglo-saxonio, enta significa gigante. É tambem para notar-se a similhança da palavra anta com o nome de Anteu. Na lingua portugueza e n’outras linguas anta significa o contraforte do edificio, a parte saliente que se eleva desde o alicerce até ao cimo, ou até parte da altura. A este elemento architectonico chamamos nós egualmente gigante, de sorte que n’este sentido anta e gigante são synonimos. Finalmente, não falta quem derive a palavra anta do celtico hana e hanouth que significam, assentar-se acampar, armar a tenda; e tenda, acampamento, morada. Na Argelia dão o nome de hanouth ou hanouïta a cavernas que a mão do homem abriu em epocas tão remotas que não constam das tradições. Vej. L. de Maule—Pl. Nouveaux documents archéologigues. Pariz, 1874.
4.ª
DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHICA DOS DOLMENS NA EUROPA
«Ao oeste de São Petersburgo, na parte septemtrional da Russia occidental, na Curlandia, começam a apparecer os dolmens, mencionados pelos viajantes e pelos antiquarios com os nomes de tumulos de pagãos ou de camas de gigantes. Todavia são ali raros. Mas o numero d’elles augmenta cada vez mais para a parte do poente, ao longo do Baltico. Ao oeste do Vistula são já muito frequentes. Contam-se aos centos nas provincias de Dantzig e de Stettin, na Pomerania, ao longo do Oder, desde a foz até Francfort sobre o Oder, e mais em particular em roda da pequena cidade de Dressen. Keferstein, auctor de um livro respectivo ao assumpto, encontra-os depois no Elba, na foz primeiramente ao longo do mar, depois até Magdeburg, rio acima. Não descem além d’aqui para o sul. Abundam no Mecklenburg, em Schwerin e Strelitz. No Hanover subsistem ainda de pé uns duzentos, apesar de terem sido muitos destruidos em tempos de que se não perdeu ainda a memoria. Contém tambem muitos o ducado de Oldenburg e principalmente a parte contigua ao Weser.
«Diminuem para a parte de oeste. Ha, é verdade, cincoenta e quatro na provincia de Over-Yssel na Hollanda, mas a Belgica, onde a pedra é tão rara, contém apenas um. Para se não perderem os vestigios dos dolmens ha de voltar-se ao norte, pela Dinamarca. N’esta direcção encontram-se em tal numero que não tem conto.