Vinha dos montes uma brisa ardente.
O céu ganhára tons d'azul cobalto.
O luar cahia silenciosamente.
Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.
Arrependidos, ou então, cançados
De se fitarem com demora em mim,
Os seus olhos piedosos e sagrados
Ao dialogo d'amor puzeram fim.
Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
Como se foram duas borboletas
Voando para duas assucenas.
Ergueu-se. O busto delicado e fino
Tinha os suaves, religiosos traços
Da Virgem num altar. Só o Menino
Faltava na doçura dos seus braços…
Num olhar impregnado de candura,
Disse-me adeus e recolheu. Depois…
A luminosa noite fez-se escura.
Calaram-se na sombra os rouxinoes.
Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
A madrugada sem que o conseguisse.
Quem um sonho tão limpido sonhára,
Inutil se tornava que dormisse…
Annos felizes neste amor gastei.
Vieram em seguida as horas más.
O que nellas soffri, o que passei,
Um dia, noutra carta, o saberás.
MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE
Dez da manhã. Vento da serra. Tres graus negativos
Mãos frias, coração quente!
Quanta vez isto dizias
Com o teu ar sorridente,
Apertando-me as mãos frias…