Do episodio que acabo de contar-te
Tão simples, tão banal, que dá vontade,
Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
De lhe roubar um pouco de verdade,

Foi que este amor espiritual nasceu,
Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
Repara, amigo, como olhando o céu
A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

Mas quem podia então adivinhal-o?
O olhar dessa mulher era tão lindo
Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
Descera a noite. A lua ia subindo…

Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
Dava em toda a varanda. Assim, eu via
As fórmas portuguêsas do seu rosto
Nitidamente, como á luz do dia.

E cá dentro de mim senti nascer
A dúvida, a incerteza, a hesitação
Sobre o que mais desejaria ser:
Se o noivo della, se o primeiro irmão…

Uma estrella cadente reluziu
Por sobre as torres da vizinha egreja,
Pensei commigo: Deus o decidiu:
É minha noiva que Elle quer que seja.

Não dizia ventura, mas desgraça,
A claridade do signal aereo.
(Na mesma direcção da egreja, passa
A rua que vae dar ao cemiterio…)

Porém, como querendo agradecer-me
A decisão que attribuira a Deus,
Inclinou-se de leve para ver-me
E os doces olhos demorou nos meus.

Sob a caricia desse olhar cinzento,
Que ao abaixar-se parecia negro,
O coração que me batia lento,
Mudou o andamento para alegro.

Uma hora decorreu. Outras passaram.
Passaram, foram-se; e naquelle enleio
Que tempo os nossos olhos conversaram!…
Estava a noite já em mais de meio.