A agua vinda neste vaso fragil
Que um ignorado artista modelou
Num gesto—já mechanisado e agil—
Á força d'imitar o que encontrou,

É um assunto cheio de belleza,
Cheio de claro e alto ensinamento.
Assim na branda fala portuguêsa
O désse eu, como o tenho em pensamento!…

A agua é como a esp'rança
Que a tudo se sujeita…
Onde quer que se deita
Lá fica humildemente acommodada,
Seja a concha da mão duma creança,
Ou a taça lendaria da ballada…

Tanto sacia
Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
(Que um só valia
O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
Como a que se toma
Na argilla porosa,
Alegre trabalho dum simples oleiro…

E é
Até
Bem mais saborosa
No barro suarento
Deixado á janella,
Que num opulento
Copo lavrado
Que seja pertença de rica baixella
E sonho gentil, cinzel phantasista
Dalgum grande artista
Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

Bichos humanos, féras em pé,
Sêde bondosos como a agua o é…

No luzente alcantil da magnitude,
Ou no áspero declive da pobreza,
Nunca cerreis o espirito á virtude,
Nunca fecheis os olhos á belleza.
Que todo o coração,
Desde o sabio de genio ao cavador,
Seja o Calix de paz e de perdão
Contendo a agua limpida e lustral
Dum irmanado e perpetuo amôr…

Agua que limpe a mácula do mal
E mitigue a miseria, a ancia, a magua
Desta cruenta e impiedosa guerra
Em que tantas creaturas se consomem.

Nem só da agua
Que vem da terra
Tem sêde o homem…

Nasce uma fonte
Rumurejante
Na encosta dum monte;