E mal que do seio
Da terra brotou,
Logo o seu veio
Transparente
E diligente
Buscou e achou
Mais baixo logar…
E sempre descendo,
E sempre a cantar,
Vae andando,
Galgando,
Vencendo,
(Ou tenta vencer…)
Folha, raíz, areia, o que tolher
A sua descida…
Ao brotar da dura frágoa
—É uma lagrima d'agua…
Mas esse humilde fiozinho,
Que um destino bom impelle,
Encontra pelo caminho
Um outro que é como elle…
Reunem-se, fundem-se os dois,
Proseguem de companhia,
E fica dupla depois
A força que os leva e guia…
Junta-se aos dois um terceiro,
Outros confluindo vão,
E o regato é já ribeiro
E o ribeiro é rio então…
E nada agora o domina
Ao fiozinho da fonte.
Entre collina e collina,
Ou entre um monte e outro monte,
Caminha sem descançar,
Circula atravez do mundo
—Até á beira do mar
Omnipotente e profundo…
Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
A vaidade é uma amante enganadora)
Que o mais alto de vós se humilhe e desça
Como se humilde e pobre sempre fôra…
E que os demais desçam tambem de todo
O orgulho e mando sobre escravas gentes
Até ao valle, de lagrimas e lôdo
Onde a miseria brada e range os dentes.