Se ao dal-o ao mundo soffri
Tormentos, ancias mortaes,
Desgraça, vae-te d'aqui,
O que pretendes tu mais?!
Bate as azas, mas ao voares,
Não me apagues esta estrella.
Se alguem d'aqui precisares,
—Aqui me tens, em vez della!
Tocam ás ave-marias.
Foi-se o sol. Não vem a lua.
Luzinha que me allumias,
Que sorte será a tua?…
Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade tambem,
Que ao redor d'onde tu andes
Não fique pobre ninguem.
Que a todos chegue a ventura:
Toda a bocca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dôr, consolação…
Mas se o oiro é mau caminho,
—Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.
Iremos por esses montes
Altos e azues, como os céus…
Que onde ha fructos e onde ha fontes,
—Está a meza de Deus!
E, quando a neve cahir
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir…
(Acceitar o que nos derem!)
Andaremos á mercê
Dos genios bons, e dos falsos,
Leguas e leguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços…
E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pelle,
Porei o corpo de rôjos
—Passarás por cima delle!