Como os mergulhadores orientaes
Que ao leito das ondinas vão roubar
As perolas fulgentes, virginaes,
Sondei o negro abysmo d'esse olhar.
No pelago vastissimo do mar
Mergulham elles, muita vez em vão;
Pois eu, mulher, roubei ao teu olhar
—A perola sem par d'esta paixão…
Ignotus
Ninguem sabia ao certo quem elle era,
O bondoso pastor do presbyterio.
A terra onde nasceu? D'onde viera?
—Em vão se investigava tal mysterio.
Andava sempre só. Pelos caminhos
Encontravam-n'o, á tarde, muitas vezes,
Parado, a ouvir a musica dos ninhos
Ou as joviaes canções dos camponezes.
O signal do seu livro de orações,
Um dia que passava, absorto, a lêr,
Cahiu perto d'um grupo d'aldeões.
Um velho ao apanhar-lh'o reparára:
—Era um retrato antigo de mulher
D'uma belleza peregrina e rara.
Nec semper
São gemeas a Verdade e a Belleza,
Disse-me um grande sabio n'outro dia.
Se elle te conhecesse, com certeza,
Tamanha falsidade não diria.
Pois tu oh formosura incomparada
A quem o meu amor ardente aspira,
Sendo a propria Belleza humanisada
—És a synthesis viva da Mentira!