Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata,
Da fina flor do tom, os dandys adamados
Que andam pelos salões, monoculando, á cata
D'um dote que lhes salve a pança de cuidados.
Tenho, como qualquer, a aspiração ideal
D'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal;
Mas tudo se desfaz se penso um só momento
N'este quadro banal, depois do casamento:
O sogro, a sogra, a esposa, um filho já taludo
E eu, muito aborrecido… a olhar p'ra aquillo tudo.
Dolorosa
Deitada sobre o esquife funerario
E vista á chamma trémula dos cirios,
Tinha a alvura das hostias do sacrario
E a pallidez suavissima dos lirios.
No seu rosto gentil e sorridente
Havia a languidez da pomba mansa.
Parecia dormir serenamente,
Immersa em vagos sonhos de creança.
Annos passaram desde que morreu;
Comtudo vibra intensa no meu ser,
A sensação do beijo que me deu
Poucos momentos antes de morrer.
E julgo vel-a ainda á luz dos cirios,
Deitada sobre o esquife funerario,
Mais pallida que as petalas dos lirios,
Mais branca do que as hostias do sacrario.
Sonho de nupcias
Eu punha no teu labio a nota quente
A musica vibrante dos desejos,
Poisava-te no collo branco, ardente,
O poema rendilhado dos meus beijos.