É necessario ser um iniciado nesses mysterios d'Isis e de Eleusis, um hierophante, para encontrar, por entre esses hieroglyphos, o pensamento e a idêa, é necessário ter o fio de Ariadna para penetrar n'esses labyrinthos—e penetrando... que montões de duvidas! Quando se solta assim tão alto vôo, para as elevadas regiões do desconhecido, deixa-se á porta a Verdade, como esses aventureiros, que não vendo a fortuna junto do seu modesto e humilde lar, vão, atravez de mil perigos e fadigas, procural-a em longinquas plagas.
Será a aza da sabedoria que encaminha os sectarios da escola de Coimbra para esses incognitos paizes? viajam... chegarão ao porto?... mas será tambem a fórma das poesias do snr. Castilho haurida na pura e crystallina fonte do Bello? Duvidamos.{17}
As poesias do auctor da Primavera são reflexos das tradições gregas e romanas, são imitadas dos poetas da antiguidade pagã, com um pronunciado ressaibo do seculo desoito; é o snr. Castilho um Theocrito enxertado n'um Florian; mas muito, muito superior ao auctor de Estella, e quasi igual ao poeta da Grecia. Além de transparecer nas poesias do snr. Castilho a imitação da antiguidade, adivinham-se tambem n'ellas as numerosas e primorosas (?) versões gregas e latinas.
Não apuram o gosto as traducções, pelo contrario estragam-n'o. Fundamentaremos este asserto.
É impossivel conhecer-se e avaliar-se o merito d'um auctor estrangeiro, quando principalmente o merito se basêa no estylo e na dicção. Os pensamentos, que pertencem ao coração, que são cosmopolitas, sim; porque basta possuir-se uma alma elevada e uma intelligencia robusta para comprehendel-os; mas a dicção e o estylo, que teem uma terra natal, um sol que lhes pertence, não. A individualidade, a nacionalidade dos escriptores, dos poetas, teem mysterios que só um compatriota póde penetrar.
Se isto, que acabamos de dizer, passa como aphorismo em relação aos auctores modernos, é um axioma a respeito dos escriptores da antiguidade, separados do tempo em que vivemos por longos seculos, e escrevendo numa lingua cuja prosodia se ignora.
Como se poderá fazer idêa da harmonia da prosa de Demosthenes ou Cicero, da melodia e da cadencia dos versos de Virgilio ou de Hesiodo, articulados e recitados com as regras de pronuncia e de accentuação dos idiomas modernos e escutados por ouvidos de Barbaros?
Por melhor que se conheça um idioma estrangeiro, nunca será possivel penetrar no sacrario intimo dos seus mysterios; hade-se confundir milhares de vezes o fogo fatuo com o esplendor do sol—falta o leite da ama, faltão essas primeiras palavras,{18} brandamente murmuradas ao ouvido da criança, preza ainda dos seios maternaes.
E reflectindo, imitando a fórma que se não conhece, o estylo que se não póde avaliar, não é seguir um caminho errado?
Se a Musa do snr. Castilho não bebeu na fonte de Hipocrene, se saudosa, busca a inspiração no passado, a prosa do auctor dos Quadros Historicos, tambem vasada pelo molde dos antigos escriptores portuguezes, não segue e acompanha o curso das idêas modernas, retrocede com saudade para os tempos que já lá vão; não se deixa ir brandamente ao som da agua, lucta contra a corrente do caudaloso rio, tentando, sem cessar, attingir o monte d'onde rebenta e se desentranha o manancial.