E este combate entre as idêas novas e as antigas, combate, em que estas ultimas ficam sempre vencedoras, não será indicio d'um gosto pouco apurado?... De que monta que a linguagem seja bôa, se é máo o estylo?

Deve a linguagem ser filha legitima da lingua materna, ter com ella semelhança viva, como que concebida em união amorosa; mas assemelhar-se como uma rapariga formosa e louçan se assemelha á sua mãe. Deve, entre a belleza, os attractivos viçosos e frescos d'uma e os encantos murchos da outra, haver uma relação de parentesco, uma harmonia, um laço intimo e mysterioso; mas não se devem sulcar com fundas rugas as faces da gentil donzella, embaciar-lhe o brilho dos olhos, desmaiar-lhe o encarnado dos labios, denegrir-lhe o branco esmalte dos dentes, substituir-lhe as louras e abundantes madeixas por cabellos encanecidos, para a semelhança ser mais perfeita, para não haver duvidas sobre a genuinidade do parentesco.

Basta, que a imaginação transportada ao futuro, reconstrua na filha os estragos, que o tempo fez nos encantos da mãe, e resuscite no rosto d'esta, atravez das nuvens do passado, os attractivos viçosos, a frescura da mocidade, e as ache depois no pensamento eguaes, gemeas, uma Sosia da outra. Mas n'um barranco talvez mais fundo tropeçou o auctor das Odes Modernas.{19}

Muito lido e versado nas litteraturas do Norte, os vocabulos variados que lhe embaração a memoria tornam-lhe confusas as percepções; quando lhe apparece a idêa, não sabe o véo com que a ha-de envolver: pensou-a o cérebro em differentes linguas, e d'essa união resulta um aborto multiplice e indigesto de concepções synchronas. Carece a idêa d'esse typo de paternidade e raça, sem o qual as obras da intelligencia se assemelham a massas nebulosas. A idêa mais verdadeira não passa muitas vezes d'um enigma indecifravel, se o homem que a concebeu não soube escolher a fórma que lhe convem.

Não deitemos no leito de Procusto nem o sabio auctor da Primavera, nem o inspirado poeta das Odes Modernas; sejamos ecclecticos; saibamos distinguir as bellezas, que brilham nos escriptos d'ambos. Se unicamente considerarmos o merito litterario, qualquer das obras do snr. Castilho pesará mais na balança do que tudo o que tem escripto o snr. Anthero do Quental; mas para quem, n'este valle de lagrimas, se quizer sustentar d'ambrosia e de ideal, viajando com a imaginação pelos esplendores dos mundos invisiveis, dos mundos melhores, que differença entre o poeta philosophico e o poeta pagão, entre o Artista que procura o Bello no Ideal e o Artista que julga encontral-o na natureza, na verdade! entre o sectario da escola realista e o adorador fervente do idealismo!

IV

Hoje em dia não ha convicções profundas; o vento gelado do scepticismo varre e dispersa como impalpavel poeira as persuasões intimas. Duvida-se de tudo; o sol que viu nascer uma opinião, presencêa-lhe varias phases e metamorphoses, e assiste-lhe á agonia. A liberdade, o espirito de nivellamento e de moralidade, o odio das superioridades, a inveja emfim, manifestada sob a fórma da democracia, invadiu os dominios da litteratura, como já invadira o resto da sociedade. As theocracias, as aristocracias litterarias cahem por terra desfeitas em pó: não se reconhecem mestres nem authoridades, nem se admittem regras. São consequencias do progresso do seculo.{20} Todos pronunciam e se arrogam o direito de julgar, segundo as suas luzes, o seu gosto, o seu systema, a sua escola, o seu odio, ou o seu amor. É uma lucta de morte travada entre a inveja, origem de todo o poder democratico, e o orgulho, pae de todas as aristocracias.

É este o motivo porque nada provam as insinuações do snr. Castilho contra Anthero do Quental nem o «Bom-gosto e Bom-senso» d'este ultimo. O despeito guia a penna de um, e a diatribe do outro foi dictada sob a inspiração d'uma paixão vingativa—despeito e vingança! máos affectos e pessimos conselheiros! Mas não será a manifestação d'uma vingança mais attendivel e desculpavel, que a manifestação d'um despeito mesquinho? Julgo que sim—presuppõe a vingança uma offensa primordial, o que d'algum modo a justifica e legitima.

Desceu do Olympo o snr. Castilho e veio á arena combater; mas, dura fatalidade! era o seu antagonista um novo Diomedes. Arcaram ousados os dois campeões, e o Deus pagão, rotas, aboladas as armas, apartou-se mal ferido da peleja—que importa que os seus golpes fossem tambem certeiros? estava consummado o sacrilegio.

Tira-se d'esta guerra litteraria uma moralidade: Deus não, mas os deuses pódem ter as armas falseadas—de nada vale a tempera do Styge—pódem ser feridos, se o braço que lhes atirar os golpes fôr robusto, forte e armado pela justiça—mas haverá perdão para o crime de lesa-divindade pagan?... se o meu bastasse...