«Ulysses, heroe matreiro,
Andava apanhando ninhos,
E vendia os passarinhos
Por avultado dinheiro....!!!

Voltando porém, ao folheto do Bom-senso. Que reprehende o sr. A. F. de Castilho á eschola de Coimbra? A escuridade dos conceitos e da linguagem. A este, o verdadeiro, o unico ponto da questão, com que responde o sr. Quental? Com um rol de nomes de auctores forasteiros—Quinet, Littré, Proudhon, Taine, etc.

Mas Taine, Littré, Quinet e Renan são clarissimos. Mas á summa elegancia, á perspicuidade suprema do seu estylo deveu Proudhon a diffusão das suas idéas revolucionarias, das suas doctrinas, dos seus paradoxos destruidores. Os mesmos dotes nas obras que firmaram a reputação de Michelet, o qual apenas em algum livro moderno (Sorcière, Bible de l'humanité) me parece deslizar d'essa grande virtude{16} da clareza, a que elle proprio chama a probidade das linguas, e que com muito mais razão deve ser a probidade do escriptor.

Se no idioma proprio Stuart Mill se nos affigura menos limpido que nas paginas de Dupont-White, a culpa não a imputemos a elle, mas ao nosso escasso inglez. Dos auctores allemães não fallo. Os innovadores de Coimbra leem-nos em francez como eu leio alguns, sem que por isso me declare alistado na legião dos pequenos deuses bastantemente satisfactorios, que substituiram Jehovah, o defuncto Senhor dos Exercitos. E tanto é verdade que só em francez os lêem, que o sr. Quental até os cita em francez, como se póde ver nas Odes modernas, a pag. 6.

Ora, dos escriptores tenebrosos com que a eschola de Coimbra se defende, qual é o que, fóra da circumscripção geographica do seu paiz, em França por exemplo, conseguiu fazer-se recebido, sem se subordinar ás exigencias do espirito d'aquella nação; sem se transformar, sem se accommodar ao «gosto francez?»

Ferrari enriquecera de notas explicativas a sua edição da Sciencia Nova; os principios d'este livro tinham sido expostos por Ballanche; e todavia o nome de Vico permaneceu ignorado até ao momento em que Michelet tomou a si explicar e vulgarisar as suas idéas. O estylo das obras allemãs de H. Heine é por ventura o das versões feitas a seus olhos, ou o das obras escriptas annos mais tarde em Paris?

Quanto á Symbolica de Guigniaut, sabe-se que é antes um labor de interpretação original do que a versão da obra de Creuzer. Vera, o traductor da Philosophia da natureza, viu que não bastava dar em francez as obras de Hegel. Eil-o logo a repetir explanação sobre explanação, volume sobre volume—Introducção á Logica, Commentario perpetuo, Introducção á Philosophia, O hegelianismo e a philosophia—que servissem de glossa e fossem um passaporte dos escriptos do reformador de Stuttgard... Pois nem assim creio que conseguisse melhorar em nossos dias a posição do seu auctor, o qual bem se conhecia, e como tal, diz um critico francez, se plaignait, de son vivant, de n'avoir été compris que par un seul disciple, qui même l'avait MÉCOMPRIS.—Mas, quer v. um exemplo mais vivo da difficuldade com que se fazem acceitas{17} ao resto da Europa as especulações, as caligens da philosophia germanica? A versão da Vida de Jesus de Strauss, publicada em 1839, só dezesepte annos depois teve segunda edição. E comtudo o traductor chamava-se Emilio Littré.—Apparece em 1863 a obra de Rénan, obra condemnada pelo proprio Proudhon (Du principe de l'art, 1.º volume das obras posthumas) e pelos racionalistas da Allemanha, obra cem vezes inferior, em valor scientifico, á de Strauss, e em cinco mezes exhaurem-se nove edições! O estylo fizera a reputação d'esse livro inconsistente e contradictorio, prenhe de phrases dubitativas, de allegações falsas e de risiveis conjecturas.—Mas não é tudo. Na mesma lingua, de francez para francez, se tem visto serem ás vezes necessarios estes trabalhos de tradução—o trabalho de Dumas filho vertendo na admiravel lingua dramatica do Supplicio de uma mulher a concepção absurda de E. de Girardin.—Assim é que as diffusas e obscuras theorias do fundador do positivismo, Augusto Comte, careceram de ser depuradas, resumidas e aclaradas pela elegante penna de Littré, sem o que parece que ainda hoje o não intenderiam no seu paiz.

Mas agora reparo, que tenho levado a tagarelar sem tom nem som por todo este papel. Cinjo-me já á resposta das cartas de v. , e peço desculpa da minha enfadonha verbiagem.

Confrontando a sua correspondencia com a conta corrente que me acaba de enviar, vejo (Omitte-se o resto da carta, por versar exclusivamente sobre negocios de interesse particular e commercial).

Sempre