.... SR. A. M. PEREIRA
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1866.
Agradeço a v. ter-se lembrado de mim com a remessa do folheto Bom-senso e bom-gosto, accudindo d'este modo á natural impaciencia em que previu que eu ficaria por tomar conhecimento da questão.
Egual favor desejarei merecer-lhe sempre que alguma novidade como esta, e a do casamento civil, venha pôr em alvoroço a republica das lettras, republica em todo o rigor do sentido popular que damos á palavra. Eu sou, já de annos, por gosto e systema, colleccionador d'estas curiosidades litterarias. Bem o sabe v. , que tanto me tem ajudado na minha inoffensiva paixão, pois é aos seus pacientes esforços que principalmente devo o ver a esta hora tão medrados alguns corpos de processos celebres, taes como Verdadeiro Methodo de Estudar, Camões e José Agostinho, Eu e o Clero, Ordens religiosas, Irmãs da charidade, União Iberica, Pena de morte, Biblias protestantes, etc. Por isso mesmo recommendo instantemente a v. que não deixe de enviar-me o que fôr apparecendo, não só com referencia a qualquer dos assumptos notados, mas ainda á Vida de Jesus de Renan, ao padroado do Oriente, ao folheto do Bom-senso, e bem assim tudo o que houver agora publicado sobre a questão do casamento civil.{14}
Dizem-me que o folhetim do sr. Pinheiro Chagas em resposta aos innovadores de Coimbra, saiu avulso, e eu desejaria obter a todo o preço um exemplar.
Quanto a mim é a cousa mais substancial que até aqui se tem escripto, posto haja paginas excellentes, pelo vigor e pela eloquencia, no folheto do sr. Julio de Castilho, e rasgos de humor caustico deliciosos no do sr. Roussado. O folhetim do sr. Teixeira de Vasconcellos accende uma vela a Deus e outra ao diabo. Aos seus olhos o auctor das Odes modernas mede a mesma estatura do sr. A. F. de Castilho, e entre um e outro nome o folhetim não ousa decidir-se! As Theocracias Litterarias, essas parecem-me a composição mais pifia, mais peca, e mais sêcca que a polemica tem brotado de si.
O sr. conselheiro Castilho terminou a publicação das dez cartas sobre a eschola coimbran. São o commentario lacerante de muitos dos infinitos disparates em que enxameiam as producções do sr. Quental. Depois d'esta formidavel fustigação seguia-se a vez do sr. Theophilo Braga. Pudemos porém persuadir o sr. Castilho a gastar oleum et operam mais proveitosamente.
Eu sou um admirador sincero dos talentos poeticos do auctor da Visão dos Tempos. Intendo, porém, como toda a gente, que os seus escriptos em verso não teem a intenção, o alcance philosophico, que o poeta lhes quer attribuir, e creio que sem os apparatos de que elle os precede, sem as estheticas, as tricotomias, as asceses, as geneses, as syndereses, as relatividades e as absolutividades, os symbolismos telluricos e as expressões morphicas, o publico lh'os acceitaria e applaudiria de muito melhor grado.
Qual é o homem de mediana erudição em Portugal, que, pondo deante dos olhos, não digo já as Antiguidades do direito allemão, mas simplesmente a obra com que Michelet tornou conhecido o livro de Grimm, não seria capaz de escrever ácerca das origens a que se conveio em chamar poeticas do direito portuguez uma obra mais farta, mais instructiva, e sobretudo muito mais amena que a do sr. Theophilo Braga?
Apezar do mau estylo em que são escriptos, ha merecimento—quem o nega?—nos seus artigos de litteratura portugueza.{15} Mas, já o sr. Pinheiro Chagas o disse, esses artigos não dão um passo para além dos prologos de Garrett. Veja-se por exemplo o que versa sobre a lenda do Fausto. A idéa mãe deparou-lh'a um dito das Viagens na minha terra: a obra franceza de Maury sobre as Lendas da edade-média; o drama de Marlowe na versão franceza do filho de V. Hugo, e a versão franceza da Mystica de Goerres fizeram o resto. Quem tiver visto na sua nova edição a Histoire de la litterature du colportage de Carlos Nisard, pasma necessariamente da penuria do artiguito ácerca da literatura de cordel. Entretanto, com que facilidade e felicidade, com que graça, com que sabor não foi o assumpto indicado por Garrett á frente do jornal A Illustração! A que se reduzem pois as invenções do sr. Theophilo Braga? Quaes são os systemas, os pontos de vista novos, os factos que elle não achasse já apurados ás margens do Sena pelos seus auctores preferidos? Um: a influencia do cyclo greco-romano na poesia portugueza, que o illustre critico foi estudar a Cascaes, d'onde nol-a trouxe comprovada (a tal influencia e tambem a tradição da vinda de Ulysses) com um documento incontrastavel, um documento historico gravissimo e vetustissimo—as decimas que principiam: