Caminhe v. s.ª, progrida com as suas innovações desentranhando as sociedades do futuro; e deixe bradar no deserto{12} estes imbecis. Perdoe-lhes, ill.mo sr., que elles não sabem o que fazem. Ignoram que o que é grande lá em cima por onde v. s.ª anda, é pequeno cá embaixo por onde rastejam.
A linguagem transcendental que abre os horisontes immensos do futuro é extranha cá nos arruamentos de Lisboa, e por isso, quando o povo ignaro a escuta na bocca de um ou outro, exclama: coitadinho, tem aduela de menos.
Eu porém, que os admiro, peço licença para erguer-lhes aqui um monumentosinho no seguinte
SONETO
Cabello em desalinho, hirsurto e farto,
A face macilenta, o olhar incerto,
Distingue uns vates d'estrangeiro enxerto,
Que ao mundo impingem transcendente parto.
Tremem nas lyras os bordões de esparto
Do mystico aranzel rompe o concerto;
Um diz que o sol é hostia, um mais esperto
Diz que o céo é quintal e o Deus lagarto.
Outro de ventas no ar, immovel, hirto,
Clama que o Padre Eterno é semimorto,
Aquelle aos astros chama ethereo myrtho.
Deixam com seu cantar o vulgo absorto,
Que esse grupo fatal, com magoa advirto,
Das hortas do Ideal regressa torto.
Por tudo e por muito mais se confessa
De v. s.ª
admirador permanente
MANOEL ROUSSADO
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