Ah! abençoados quatro tostões que o livreiro me recebeu{11} envergonhado em troca das deliciosas prophecias de v. s.ª! Com a leitura das obras do sr. Quental a humanidade ha de brevemente sentir o espirito aberto para o bello ideal, e a intelligencia fechada para as secções em que se divide a grammatica mundana.
E eu estou desconfiado de que lá em cima por onde v. s.ª anda, isto de se fallar ácerca do impalpavel consiste em uma especie de sorteio, como eu já tinha ensaiado antes de haver lido as Odes Modernas.
Tinha eu imaginado a Deus dizendo ao Universo a grande missa da creação. Precisava de um pensamento condigno do assumpto e não o achava. Deitei n'um chapéo tres palavras em tres papelinhos para ver o que sahia. As palavras eram: estola, veste, infinito, e como estas palavras precisavam de colxetes que as ligassem, deitei mais no chapéo em quatro papelinhos differentes o tempero seguinte: a—do—que—o.
Chocalhei tudo, tirei ao acaso papelinho por papelinho e sahiu-me:
«O que veste a estola do infinito:
Bravo! exclamei; e qual foi a minha admiração quando a pag. 39 das prophecias de v. s.ª encontro exactamente o mesmo verso!
Teria v. s.ª para o fazer usado da mesma giria que eu usei? Creio que sim, creio que a grande musa do acaso, é que é a inspiradora dos vates idealistas que fulguram em Coimbra.
«O que veste a estola do infinito (!)
Os reptis do charco immundo da vida dizem naturalmente que é asneira, mas eu estou com v. s.ª, digo que é sublime.
Vão lá tapar a bocca aos maldizentes de Lisboa, os quaes andam por ahi a gritar que deu o mal das vinhas na litteratura coimbrã, que é preciso serem enxofrados os vates idealistas e innovadores das margens do Mondego, e que ás authoridades de Lisboa cumpre estabelecer o cordão sanitario que nos preserve da invasão da epidemia!