Bernardo considerou despreoccupado:

—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu aqui me demoro! Não cae.

—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de minha mãe, que se ía metter ahi. Se se esbarronda, ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros filhos que tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, que ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi uma cousa assim, por causa da chuva.

Bernardo recordou o facto dizendo:

—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, trabalhar ao domingo!... Foi um castigo.

—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira caíu-lhes em cima e matou-os. Tu ahi não estás bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás profundas do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê lá no que te mettes. O diabo arma-as.

—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação.

E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, que não durou muito. Uma chuva pesada e forte, principiou a caír sobre os arvoredos, produzindo o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, densa e opaca, de uma côr uniforme entre o cinzento e o azul, a côr da agua pulverisada, obscurecia os objectos distantes. O vento impetuoso impellia a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. Os ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se passivamente. O rapasito, que ficara no caminho, guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao velho corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, lavados pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as nos sovacos para as aquecer. Com o fim de se abrigar do vento que passava zumbindo, mettia-se por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada a si. Os seus cabellos castanhos, de um comprimento desleixado e desigual, empastavam-se-lhe na testa. O olhar era mortificado e de paciencia; porque a tia Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel, batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. Por isto, e porque era engeitado, é que o Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que sua mulher o esmurrasse desalmadamente e a que, seu filho adoptivo, lhe désse pontapés que o atiravam de focinhos!...

Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho chamou o Chico, para se recolher na cova onde elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, ao mesmo tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. Então o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a contra o peito e foi-a atravessar diante das rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu corucho, para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello e, inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo monte acima, entrando no barranco por um carreiro. Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob aquella mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim Moita, quanda fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se e matal-os n’um prompto—n’um abrir e fechar de olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se confundia no esfumado da chuva copiosa. Como o vento soprava do sul, não os incommodava. Bernardo estava em pé, com a sachola encostada ao hombro e o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum tempo calados, olhando distraidamente para o ar, que tinha impulsos ondulatarios como o das vagas, para os campos subjacentes de um verde esmorecido, para as arvores proximas que se vergavam á força da ventania. O Repolho entreteve-se alguns minutos a considerar como as gotas da chuva tornavam aspera e irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára no fundo da barreira!... O rapasito, sentado sobre os calcanhares, olhava para os montes distantes, contando mentalmente o numero de cabeços, nunca acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava de cada vez, com mais impeto, e o velho disse com tristeza:

—Santo nome de Maria, que tempo este!