Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que já estava calada, ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente, em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos! Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um santo como elle era! Uma desgraça assim!»
Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes, consolavam-n’o, lembrando-lhe que a desgraça acontecera por vontade de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modo brusco e mal creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa:
—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!...
E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente, e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!», restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido, sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume, continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego:
—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse moço ha de vir com fome.
E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu, expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais secca, mais sincera:
—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...
Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como tudo se tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva, mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor. Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo». Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O pago foi o que se viu, ficar esborrachado.
O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca. Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado pela palavra quente da tia Genoveva, e, como já lhe haviam posto o bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo, disse reprehensivamente, para a viuva:
—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não fosse pascacio!