—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...
E levantaram a banca sendo já dia alto.
O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante, principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente. Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido perguntou com modo achincalhador:
—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao demenistrador. O que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para lembrança d’esta noite.
Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!
No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava, affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém, esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde principiou a examinar detidamente a melhor egua, para a comprar! Era um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés até aos cascos, para ver se estava puchada. Observou-a na dentadura, levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha experimentado, para que o não enganassem outra vez!...
O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando estrondosamente a sua pitada de meio grosso. O amante da Marianna Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:
—Ó senhor padre! Ella é maluca?
O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente timbrada:
—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah! Ah! Ah!...