E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas, que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira:
—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente, nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade.
As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar bem desempedida a carreira... Depois, quando esse momento chegou, partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores, que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira confessou accenando com a cabeça:
—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!
Outro feirante disse:
—E rica mão de redea!
O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas, que o Fogueira pagou logo.
Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle lhe disse que tinha vontade de ter uma aquella com o Fogueira, tomou abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia!
Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem sua prima... Era uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa d’este negocio!...
—Já tu bês que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde entrar na cousa—concluiu com pronuncia intelligente...