Os passos que se tinham sentido, eram os do velho Agrella, que vinha resar pelo morto. O alfaiate entrou com face respeitosa e compungida! Resou cordatamente, com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo das creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, elle tambem, as suas palavras de coragem...

A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento sensato, com intermittencias de sentimentalidade:—umas vezes chorava alto lamentando-se do só que ficava, achando-se enormemente infeliz e desgraçada; outras, entrava socegadamente em detalhes, em referencias, em particularidades do modo como vivera com José, rememorando as circumstancias em que lhe fizera, a ella, as vontades mais exigentes e caprichosas... Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se d’este modo, ácerca do terceiro marido que lhe morria!...

No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava pela porta dentro sem ser persentido e principiou a observar minuciosamente toda a casa, revolvendo com lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade do seu olhar sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, um fim... Primeiro attendeu minuciosamente para o esquife, andando duas vezes em volta para se certificar. Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou do chão uns restos de comida e sentou-se para lamber socegadamente um osso despresado. Por fim, sempre devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a imperceptibilidade de uma sombra, para junto do forno... Levantou com mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem duvida que foi depois de ter chegado a uma conclusão do seu demorado raciocinio, que o gato se firmou nas patas trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se, e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... onde tinha sido escondido o prato da comida. Pouco depois voltou, saltou para o chão, trazendo um rojão que pousou socegadamente junto do esquife e ali principiou a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão...

O Agrella começou por observar este facto com serenidade. O gato preto, logo que acabava de comer um rojão, levantava-se lambendo os beiços, e, sorrateiramente, ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira da agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada desagradavel e inconveniente!... A infuza que depois lobrigou debaixo do banco, apesar de Lindoria procurar escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias, completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, e, como se nada tivesse visto, continuou a seguir a linha das lamentações, fallando das qualidades excellentes do homem de Isabel, recordando casos que com elle lhe tinham succedido, avivando memorias de tempos passados... E de tal modo e com tal compuncção o fazia, que a propria Lindoria—a raposa sagaz da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do Agrella...

A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem mais salientemente reclamava as boas palavras, os elegios e as lagrimas para a memoria do defunto, que ali estava, serenamente deitado n’aquelle esquife. Ao mesmo tempo que lamentava os incalculaveis estragos da morte, ía reparando... percebendo... apopletica de raiva, que o malvado do gato preto entrava no forno repetidas vezes, trazendo sempre rojões, que vinha comer, impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, já impaciente e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir que o animal vivesse momentos tão felizes n’uma impunidade odiosa, lançando olhares furtivos ao ladrão, pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases equivocas da linguagem popular, por meio da qual desejava denunciar ás companheiras imprevidentes, aquelle roubo inqualificavel:

Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes levando um e um!

Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia aos homens fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo isto, levantou-se sereno e talvez indignado!... Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma voz compungida e de um comico ardente:

—Pega lá mulher... Aquelles defuntos do que precisam é d’esta agua benta. Benze-os com esta agua benta, ó Lindoria!...

E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um desdem rancoroso: